20 de junho de 2010

Hjelmslev

Louis Hjelmslev,
linguista dinamarquês
"A linguagem - a fala humana - é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade, seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam a nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da personalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextricavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas."

13 de junho de 2010

Desabafo social mal escrito

(Breve relato do que pensava enquanto esperava meu ônibus todas as manhãs, em um ponto próximo ao metrô República)
Descubra o que há do lado de cá. Chega mais perto e veja a que ponto chegamos. Se é que chegamos. Não é possível que aqui seja o final. Por favor. Me diga que é o meio da estrada, que há ainda muito o que caminhar, que vão ainda lavar a roupa suja, tratar os dentes podres, limpar a calçada pintada de urina e dor. Por favor. Fale que há uma saída. Fale que tudo vai mudar antes de eu fechar os olhos e dormir para sempre e que nesses bancos as pessoas estarão sentadas, despertas, nutridas. E que corpos poderão se cansar, mas nunca os corações. E os ônibus transportarão corações cheios de esperança. E a esperança brilhará com o sol, ou cairá sob forma de chuva. Diga que há esperança! Vem aqui perto, olha aqui, olha o homem caído no chão, e diga que é a última vez. Diga que amanhã haverá uma cama. Diga que amanhã haverá um emprego. Diga que existe dignidade, pelo amor de Deus, que existe dignidade fora das páginas do dicionário! Diga que portas se abrirão. E diga que sou boa. Por favor. Diga que sou boa mesmo não fazendo nada que dê resultados. Diga que sou boa só por estar sentindo o peso dessa miséria isenta de beleza comprimir meu espírito. Diga. Diga que não vou pagar por ser tão limitada e porque a capacidade de me sensibilizar afeta meus dedos, os faz escrever, mas não muda nada. Não muda absolutamente nada. Diga que adianta alguma coisa! Diga que não é nula minha tentativa de mostrar que me impressiono, que me faço indignada a cada dia, que dizer que estou acostumada é só uma ilusãozinha barata. Não me habituo. Diga que as pessoas também se assombram. Diga que refletem. Diga que fazem algo. Nem que se pintar um quadro. Nem que seja contar aos filhos. Diga que as pessoas enxergam, diga que veem o que vejo e sentem o coração torcer, retorcer, se contrair até quase inexistir. Eu preciso saber que não sou a única que se sente sufocada pela impotência.

Outro dia eu vi um homem. Um homem sentado com um saco de coisas imundas ao lado. Um homem de barba e cabelos imundos. De unhas imundas. De, talvez, uma existência imunda. Eu vi um homem que apoiou um caderno nas pernas e escreveu. Eu daria tudo para ter lido o que o homem escreveu. Eu estava no ônibus, sentada e quente, protegida e limpa. Eu estava no ônibus voltando para o meu bairro, onde meu emprego estaria me esperando. E é assim. O ônibus foi, o homem ficou, e sabe-se lá por quantos anos o homem ainda estará lá, sendo. Sendo algo que desconheço. Sendo algo que obviamente não quero ser. Mas não aceito que existam homens sendo, apenas sendo. Não admito. Mas não me movo. Fico aqui, fico aqui, escrevendo, porque não sei o que deveria fazer. Estou aqui, segura, e os homens lá. Os homens lá. Não é certo. Mas também não é errado. Não há conclusão. É isso: não há conclusão. ®

8 de junho de 2010

Dez meses desmedidos

Você bem sabe quanto amor confio eu às palavras, bem sabe como é irresistível o ardor da metáfora que salta aqui do peito para a ponta dos dedos e me faz obstinada e dependente. Penso às vezes que vou reclinar e lhe destinar apenas o plausível, o afago na face, a doçura da compreensão, o auxílio imediato, mas - peço perdão por isso - não sou capaz de me conter e imagino logo a forma de um poema ou mesmo invento uma analogia espontânea e livre quando seu rosto está bem conectado ao meu e os nossos olhos se embriagam um no outro e escorrem juntos no fluir do tempo que parece inexistir porque no sentir não cabem as horas. Você é arte. Você todo é a arte, a poesia, a música, a escultura, o quadro raro na parede quase nua da minha existência que venho pintando devagar para não terminar tão cedo.

Penso toda vez que já não resta mais nada, penso que minhas palavras talvez tenham escapado do paradigma, tenham talvez banalizado pelo excesso do uso - todavia cá estão, frescas, úmidas, as mesmas de sempre mas numa nova projeção. Não sei, não sei, meu coração amortece indagando se não seria já o momento de parar, de interromper o fluxo quase devastador das palavras que vão desistindo de mim e insistindo em você, investindo em você : em mim já morreram e agora são suas. Você talvez tenha ouvido falar em amor à primeira vista; pois eu o amo a todas as vistas, e o ama também o meu indomável vocabulário, sedento em se transformar em qualquer coisa que seja agora sua, que seja agora para você.

Para você perceber que além das palavras e além dos gestos existe um amor que vai além do amor e as palavras traem a si mesmas pensando ser possível exprimi-lo. Podem espremer o amor, espancar o amor, empobrecer o amor, inventar o amor porém jamais exprimi-lo. E de algum modo um alvoroço é sublinhado aqui dentro, já passa da meia-noite e agora eu posso desmedi-lo, deslaçá-lo na escuridão crua do inverno tecendo sentenças porque é o que sua ausência me orienta por ora. Se acaso estivesse aqui, suponho, substituiria essa morna tentativa de sabe-se lá o quê por um olhar que diria a um só tempo: tudo. Tudo em você é tão perigosamente amável, tão deliciosamente jovem e surpreendente que em minha íris se reflete algo como uma ávida imperfeição. Pois é que o amo assim.

Sem tirar nem por, com seus pés longos e chatos, seu rosto liso apenas salpicado pela barba que teima em despontar ansiando afirmar a sua maturidade - mas homem! Eu bem conheço seu espírito crescido, prudente e risonho. E o amo desta maneira: quando se senta de pernas abertas feito um bruto ou quando as cruza num ato quase sutil; quando aperta minha mão até doer ou quando, distraído pelo diálogo, esquece-se de segurá-la com vigor; quando conversa mirando meu rosto com atenção ou quando lança os olhos ao nada, como se vagasse por ruas longínquas; quando sussurra doce e tenro e eu tenho que fazer força para compreendê-lo ou quando, sem perceber, fala tão alto qual uma potente caixa acústica; quando me surpreende com perguntas que eu adoraria responder ou quando pergunta pela segunda vez a mesma coisa...

E assim vou amando-o mais e mais a cada encontro, a cada lágrima compartilhada, a cada quase desentendimento que se dissolve em um abraço e some para sempre. Eu não sei quanto o nosso amor vai viver mas eu o amaria por dez milhões de anos. Eu lhe escreveria dez milhões de livros ou rolos de pergaminho ou o que quer que você desejasse. Em você minhas palavras encontram aconchegante abrigo. Em você repousam. Por você, nascem, brilham: imortalizam. ®

7 de junho de 2010

Trechos de O Lustre - Clarice Linspector

" Não! queria ela gritar e dizer que esperasse, que não a deixasse sozinha sobre o rio; mas ele continuava. O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furiosamente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra que fosse. Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino. "


" O coração batia num alvoroço doloroso e úmido como se fosse atravessado por um desejo impossível. E a vida do dia começava perplexa. "


6 de junho de 2010

Não estou pela metade para aceitar amores incompletos

Seria bom que fossem embora, que fossem todos embora e se desprendessem da infinitude do presente, despencassem no passado e rodassem, rodassem, rodassem, misturando-se a tudo o que já foi até tornarem-se parte daquilo que não posso mais tocar. Não quero mais ter que sustentar pensamentos do agora e quero que todos estejam radiantes no antes, no antes. Quero que sejam floridas recordações, inatingíveis, lembranças adocicadas que inquietam levemente o coração - só quando peço. É uma despedida, é uma lágrima rolando e abarcando-os como um dilúvio, levando-os para trás de mim: aqui na frente não são bem-vindos.

Vão - eu peço.

Preciso que me digam adeus de uma vez por todas e saiam desse meio estado de meio amor meio sofrido que vem e volta e que me engana e que confunde os meus olhos que já não sabem mais para onde olhar. Preciso do novo. Preciso me desfazer das cartas, das notas, das fotos, não me trazem nada, não me trazem nada senão o aviso da fulgacidade. Eu não os quero, não!, partam.

Saiam daqui: é uma crise, uma crise lúcida, quero ficar sozinha, quero esquecê-los, quero que sejam tudo aquilo que não posso ter mesmo quando a força do desejo de tê-los for imensa, pesada, infalível. Quero apagá-los do presente, metê-los no passado e deixá-los pairando por lá para sempre, para sempre. Quantas vezes terei que repetir? Não quero o morno, não quero metades; não estou pela metade para aceitar amores incompletos, sou antes um cortorno indefinível que ou me preenchem integralmente ou se afastem, por favor.

Vão - eu peço outra vez.

Não quero mais, não quero mais, eu vou para a frente, fiquem aí se quiserem. Fiquem! Já me decidi, estou tão cansada, oh é verdade, estou exausta de todos. Fiquem, então. Fiquem, é mais fácil, é claro, eu entendo, por que não? a vida dói, a vida cansa, pra que sair? não se movam, eu já fui, já sumi, estou ali onde não podem mais me ver, e ainda assim não me perdi, só me encontrei mais e mais porque o antes me entonteia, o depois ainda não veio mas o agora é meu, o agora é meu, tão tolamente meu tão extraordinariamente meu que não o divido mais, não o divido, e que dancem os outros pelo mundo, não sabem o que eu tenho aqui onde não podem me ver, não sabem que o amor aqui é maior e mais completo e mais ardente e mais e mais como o meu presente que é o melhor, o mais presente de todos os presentes...


4 de junho de 2010

Amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos

Eu teimo, sim, passarei meus dias questionando o por quê das palavras, estou imersa na dúvida, naufraguei aqui e quero saber se vou sair desse estado de tensão, quero saber o motivo de continuar escrevendo mesmo sabendo que muitos o fazem, e que não há nada de novo nisso, e que existem tradições, existem critérios de avaliação e as críticas, e talvez tudo aquilo que produzo não passe de um montinho de desabafos e palavras mal-colocadas, talvez nunca conheçam meu nome e eu prosseguirei anônima, desamparada, trancada com as minhas palavras que não sei onde enfiar senão no papel onde escrevo, onde teimo em escrever porque viver não me basta, porque sentir não me basta, preciso expelir tudo isso como se fosse uma necessidade básica, mas eu me preocupo, me preocupo, sim, em fazê-lo direito, não quero despejar devaneios desconexos por aí, ao menos é o que busco, há uma lógica em tudo que faço, é uma tentativa de satisfazer essas palavras peraltas que não saem do meu pé, que ficam aqui tamborilando, que fazem cócegas nos meus dedos e não me deixam em paz até que eu as torne sólidas, e, é incrível!, mesmo depois de concretas ainda são capazes de gritar, abrem uma boca inacreditavelmente imensa e chamam por outras, é verdade, e de repente sinto em mim fervilhar um campo fecundo de onde brota uma infinidade de letras, que vão crescendo, crescendo até construírem palavras e de palavras construírem sentenças e o ciclo recomeça, e eu me sinto tão impotente, não há como contê-las, e quando me dou conta não quero mais impedi-las de habitarem meu corpo, é doce tê-las em mim, é como se ocupassem minhas lacunas, quero dizer, se não escrevo parece que me falta algo, e cada dia sem fazê-lo é uma tortura, sinto como se tivesse deixado de cumprir uma missão vital, como se tivesse deixado de tomar banho ou me alimentar, parece que minha vida não se faz sem essa arte, parece que eu travo, não funciono, não vou para frente se não me sento aqui para escrever, e são poucas as coisas que eu gostaria de estar fazendo agora exceto escrever, e toda vez que não posso estar onde gostaria de estar, procuro preencher minha própria ausência com as letras, mas não sei, de vez em quando tenho a sensação de que um amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos não vai ser nada além de um amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos, embora eu queira que sejam um amontoado de palavras cintilando nos olhos de outros, um amontoado de palavras perfurando a derme e a epiderme da alma daqueles que sequer me conhecem, que sequer sabem meu rosto, e a bem da verdade não é isso o que me interessa, não quero que me reconheçam, não quero que memorizem meus traços, quero mais é que mergulhem nessas coisinhas que são as palavras e que vão irrompendo de mim quase todos os dias sem me perguntarem se quero ou não essa relação mutualística, de acordo com a qual minhas palavras não vivem sem mim, e eu não sobrevivo sem elas.


2 de junho de 2010

Eu sou mais uma que engole vírgulas porque na vida não quero pausas

Nas veias entupidas do metrô eu sou mais uma querendo apenas me manter de pé nos corredores não pretendo ser lançada bruscamente contra as portas e nas filas intermináveis dos bancos e comércios agarrada aos ferros sujos do interior dos ônibus ou desviando das pessoas nas calçadas eu sou mais uma eu sou mais uma mais uma pagando impostos mais uma pagando pecados e contando trocados para tomar mais um café mais uma tentando deixar os olhos bem abertos tentando acordar na manhã fria e escura mais uma buscando se perder nas cores para não ter de olhar a realidade branca e preta das ruas corrompidas mais uma boca pálida resmungando cochichando ou sorrindo eu sou mais uma que vai indo, vai indo...