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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2010

Hjelmslev

"A linguagem - a fala humana - é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade, seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam a nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças e…

Desabafo social mal escrito

(Breve relato do que pensava enquanto esperava meu ônibus todas as manhãs, em um ponto próximo ao metrô República)
Descubra o que há do lado de cá. Chega mais perto e veja a que ponto chegamos. Se é que chegamos. Não é possível que aqui seja o final. Por favor. Me diga que é o meio da estrada, que há ainda muito o que caminhar, que vão ainda lavar a roupa suja, tratar os dentes podres, limpar a calçada pintada de urina e dor. Por favor. Fale que há uma saída. Fale que tudo vai mudar antes de eu fechar os olhos e dormir para sempre e que nesses bancos as pessoas estarão sentadas, despertas, nutridas. E que corpos poderão se cansar, mas nunca os corações. E os ônibus transportarão corações cheios de esperança. E a esperança brilhará com o sol, ou cairá sob forma de chuva. Diga que há esperança! Vem aqui perto, olha aqui, olha o homem caído no chão, e diga que é a última vez. Diga que amanhã haverá uma cama. Diga que amanhã haverá um emprego. Diga que existe dignidade, pelo amor de Deus,…

Dez meses desmedidos

Você bem sabe quanto amor confio eu às palavras, bem sabe como é irresistível o ardor da metáfora que salta aqui do peito para a ponta dos dedos e me faz obstinada e dependente. Penso às vezes que vou reclinar e lhe destinar apenas o plausível, o afago na face, a doçura da compreensão, o auxílio imediato, mas - peço perdão por isso - não sou capaz de me conter e imagino logo a forma de um poema ou mesmo invento uma analogia espontânea e livre quando seu rosto está bem conectado ao meu e os nossos olhos se embriagam um no outro e escorrem juntos no fluir do tempo que parece inexistir porque no sentir não cabem as horas. Você é arte. Você todo é a arte, a poesia, a música, a escultura, o quadro raro na parede quase nua da minha existência que venho pintando devagar para não terminar tão cedo.

Penso toda vez que já não resta mais nada, penso que minhas palavras talvez tenham escapado do paradigma, tenham talvez banalizado pelo excesso do uso - todavia cá estão, frescas, úmidas, as mesmas…

Trechos de O Lustre - Clarice Linspector

" Não! queria ela gritar e dizer que esperasse, que não a deixasse sozinha sobre o rio; mas ele continuava. O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furiosamente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra que fosse. Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino. "


" O coração batia num alvoroço doloroso e úmido como se fosse atravessado por um desejo impossível. E a vida do dia começava perplexa. "


Não estou pela metade para aceitar amores incompletos

Seria bom que fossem embora, que fossem todos embora e se desprendessem da infinitude do presente, despencassem no passado e rodassem, rodassem, rodassem, misturando-se a tudo o que já foi até tornarem-se parte daquilo que não posso mais tocar. Não quero mais ter que sustentar pensamentos do agora e quero que todos estejam radiantes no antes, no antes. Quero que sejam floridas recordações, inatingíveis, lembranças adocicadas que inquietam levemente o coração - só quando peço. É uma despedida, é uma lágrima rolando e abarcando-os como um dilúvio, levando-os para trás de mim: aqui na frente não são bem-vindos.

Vão - eu peço.

Preciso que me digam adeus de uma vez por todas e saiam desse meio estado de meio amor meio sofrido que vem e volta e que me engana e que confunde os meus olhos que já não sabem mais para onde olhar. Preciso do novo. Preciso me desfazer das cartas, das notas, das fotos, não me trazem nada, não me trazem nada senão o aviso da fulgacidade. Eu não os quero, não!, part…

Amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos

Eu teimo, sim, passarei meus dias questionando o por quê das palavras, estou imersa na dúvida, naufraguei aqui e quero saber se vou sair desse estado de tensão, quero saber o motivo de continuar escrevendo mesmo sabendo que muitos o fazem, e que não há nada de novo nisso, e que existem tradições, existem critérios de avaliação e as críticas, e talvez tudo aquilo que produzo não passe de um montinho de desabafos e palavras mal-colocadas, talvez nunca conheçam meu nome e eu prosseguirei anônima, desamparada, trancada com as minhas palavras que não sei onde enfiar senão no papel onde escrevo, onde teimo em escrever porque viver não me basta, porque sentir não me basta, preciso expelir tudo isso como se fosse uma necessidade básica, mas eu me preocupo, me preocupo, sim, em fazê-lo direito, não quero despejar devaneios desconexos por aí, ao menos é o que busco, há uma lógica em tudo que faço, é uma tentativa de satisfazer essas palavras peraltas que não saem do meu pé, que ficam aqui tambo…

Eu sou mais uma que engole vírgulas porque na vida não quero pausas

Nas veias entupidas do metrô eu sou mais uma querendo apenas me manter de pé nos corredores não pretendo ser lançada bruscamente contra as portas e nas filas intermináveis dos bancos e comércios agarrada aos ferros sujos do interior dos ônibus ou desviando das pessoas nas calçadas eu sou mais uma eu sou mais uma mais uma pagando impostos mais uma pagando pecados e contando trocados para tomar mais um café mais uma tentando deixar os olhos bem abertos tentando acordar na manhã fria e escura mais uma buscando se perder nas cores para não ter de olhar a realidade branca e preta das ruas corrompidas mais uma boca pálida resmungando cochichando ou sorrindo eu sou mais uma que vai indo, vai indo...