28 de maio de 2010

Não quero buscar os meus olhos na Lua

Ainda se ama a Lua à maneira dos gigolôs
(Carlos Drummond de Andrade)

Já tentei abolir meu vício de arrastar a Lua que acabo de considerar no céu para a superfície das palavras. Não sei mais dizer quantas vezes vim pela rua reduzindo os passos para desatar meus olhos e deixá-los alçar vôo, cada vez mais altos e mais depressa até esbarrarem e se agarrarem nas crateras. As nuvens vão correndo e misteriosamente desviam da potente lâmpada que acende o firmamento; deixam que se forme uma auréola de escuridão – ora, uma auréola de escuridão! É como se houvesse um abismo. Um abismo onde despencam meus olhos quando tentam traduzir a luz que emana da esfera lunar. Gostaria que alguém, algum dia, pudesse me explicar tamanha resplandecência. Não, não quero saber da influência do Sol. Não estou perguntando se a Lua é banhada ou não pelo brilho solar. O Sol não vem para nos aquecer quando cai a noite e a Lua faz o coração ficar tão quentinho, tão quentinho que dispenso os cobertores. Eu poderia passar longas horas apoiada no frio peitoril da janela e minhas pupilas continuariam incendiando, porque o fulgor, ah, o fulgor que ilustra meu rosto não é apenas visível – faz-me sentir, apalpa-me, enlaça-me em um abraço deslumbrante. Por que razão eu desistiria de pintar a Lua em letras? Embora saiba que a maior parte do esplendor se perde no caminho, embora saiba que só se experimenta a Lua largando os olhos lá, perdendo os olhos lá...

Falando nisso, preciso buscar os meus. Talvez um dia.


20 de maio de 2010

Palavra, chave

Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora

(Carlos Drummond de Andrade)

Poesia é a mão que despe a alma.
Os tijolos da poesia são as palavras.

As palavras me seduzem, me reduzem à submissão.
As palavras me conduzem, me agarram e jamais me largam.
As palavras murmuram ao longe, me invocando quando estou ausente.
Palavras: onipresentes.

Não tenho outra escolha senão recebê-las.
Palavras e ideias rogam uma forma dentro de um poema.
Eu dou a forma.
Rogam rimas. Eu dou as rimas.
Rogam versos. Faço os versos.

Mas as palavras, rebeldes palavras, nunca estão satisfeitas, e eu vejo sua inquietação.
Pulam aflitas de um canto ao outro.
Escorregam dos extremos, despencam, desaparecem.
Mudam de aparência, de configuração.
Outras brotam sem aviso no branco do papel, como caíssem do céu.
Acompanho a chegada de palavras que eu sequer sabia conhecer!

As palavras me tiram o sono.
As palavras me dão apetite.
Não sei dizer para que servem, não sei definir.
Apenas sei que as sirvo.
Cada vez mais me aprisionam em sua cela de letras.

Sou uma escrava das palavras.
E nas palavras encontro a chave.
Só não sei para onde ir quando abrir o cadeado e me ver em plena liberdade.
As palavras me abrigam.

As palavras me obrigam a trabalhar mesmo quando quero descansar.
As palavras estão por toda a parte, suplicando-me materialidade. Não se contentam em flutuar no infinito fluido dentro de mim. Querem sair. Querem ver o mundo também. Querem atenção, querem ser vistas!

E eu não posso dizer não. Não posso reprimi-las. Sou sua serva.
Então eu digo sim às palavras. Digo sim.
Sento-me aqui para escrever. Digo sim. Corporifico as palavras.

Cá estão as palavras que rogavam existir de fato.