28 de abril de 2010

O zíper da alma

A poesia é a mão mágica que abre o zíper da alma.
Eu pude senti-la. Anteontem, ontem, hoje pela manhã.
E sei que vou senti-la no dia seguinte. E no outro. E no outro.

A poesia é a mão que puxa com malícia o zíper da alma.
Despindo-a. Revelando-a. Expondo-a ao mundo.
Porque, enquanto vestida, a alma não se abala com os fatos do mundo.
Nua, ela estremece. Nua, a alma teme o mundo.

Entretanto, passado o sobressalto, a alma vive um instante de encantamento. E contempla o mundo. O que era óbvio aos poucos se vai transformando, apanhando sentidos muito além do que a alma podia captar antes, quando coberta.

A alma só é verdadeiramente alma quando assediada pela poesia.


19 de abril de 2010

Salve uma vida!

Já faz tempo que eu pretendia doar sangue e no último sábado finalmente o fiz! Particularmente me sinto muito satisfeita: além de ter recebido um ótimo atendimento, tenho a sensação de ter feito algo extraordinário - apesar de ter somente me deitado em uma cama e estendido meu braço esquerdo. No fim de tudo, ainda ganhei um lanchinho.

Escolhi a Hemoterapia Nove de Julho por recomendação do meu amigo Hélio e decidi divulgá-la, por julgar a doação voluntária de sangue uma atitude fundamental - afinal, é rápida, simples e não dói!
No site http://www.hemoterapia9dejulho.com.br/ há todas as informações necessárias para quem também quer salvar uma vida!


13 de abril de 2010

Os homens sem poesia

Nas tardes de movimento, volta e
meia
me afronta o vento, em que a
verdadenão se insinua, parece
estampadano centro da rua ou
nos muros
onde brincam os artistas
da cidade,sua juventude sem possibilidade, sua
pouca
ou quase nada liberdade, sem
energia,sem regalia, toda angústia
impressana extensa alma vazia e
nas vozesdos corações calados
dos homens sem poesia 


12 de abril de 2010

Paul Valéry

Paul Valéry,
filósofo, escritor e
poeta francês
1.
Entre a voz e o pensamento, entre o pensamento e a voz, entre a presença e a ausência oscila o pêndulo poético.

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2.
Todas as coisas preciosas que se encontram na terra, o ouro, os diamantes, as pedras que serão lapidadas estão disseminadas, semeadas, avarentamente escondidas em uma quantidade de rocha ou de areia, onde o acaso às vezes faz com que sejam descobertas. Essas riquezas nada seriam sem o trabalho humano que as retira da noite maciça em que dormiam, que as monta, modifica, organiza em enfeites. Esses fragmentos de metal engastados em matéria disforme, esses cristais de aparência esquisita devem adquirir todo seu brilho através do trabalho inteligente. É um trabalho dessa natureza que realiza um verdadeiro poeta. Diante do poema, sente-se bem que há pouca chance de que um homem, por mais bem-dotado que seja, possa improvisar para sempre, sem outro trabalho além daquele de escrever ou de ditar um sistema contínuo e completo de criações felizes. Como os vestígios do esforço, as repetições, as correções, a quantidade de tempo, os dias ruins e os desgostos desapareceram, apagados pela suprema volta do espírito para sua obra, algumas pessoas, vendo a apenas a perfeição do resultado, considera-la-ão o resultado de uma espécie de prodígio, denominado por elas INSPIRAÇÃO. Fazem, portanto, do poeta, uma espécie de médium momentâneo. Se fôssemos nos deleitar desenvolvendo rigorosamente a doutrina da inspiração pura, as consequências seriam bem estranhas. Acharíamos, por exemplo, que esse poeta que se limita a transmitir o que recebe, a comunicar a desconhecidos o que sabe do desconhecido não precisa então compreender o que escreve, o que lhe é ditado por uma voz misteriosa.

5 de abril de 2010

Hoje foi um dia parecido com chocolate meio amargo

com a garoa sutil, quase invisível, inescapável mesmo debaixo do frágil guarda-chuva, as poças d'água por todo lado, molhando e indignando os pés dentro de meias arrefecidas, não tão frio, tampouco quente; longe de ser acolhedor, no entanto nada incômodo, de céu embaçado, indefinido, ilimitado; os prédios congelados e colados na paisagem sem graça e inerte, nenhum sinal do sol, alguns sinais de sons, ônibus atropelando crateras d'água, esperança se acomodando nas lacunas em mim.