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Trivialidade da Indigência

Deitam em papelões e perdem sonhos assaltados
Roncam acima do chão, pelo mundo são farejados
Sentimos a repulsa autônoma atravessar a garganta
Por medo encerramos portas de aço quando a lua se levanta


Devoram sobras orgânicas e lambem migalhas de compaixão
Arrastam-se nas calçadas buscando consideração
Desviamos olhares pra escapar do que é degradante
Tampamos o nariz porque a verdade é nauseante

Acomodam-se em viadutos, becos, a sina dos sem-teto
Procuram um pouco de paz em algum canto deserto
Assistimos às notícias e alimentamos a comoção
Desligamos a TV sem encontrar a solução

Convivem com a imundície e conhecem a indiferença
Solidão, escuro e fome podem ser sua sentença
Criticamos sem saber quem deve ser julgado
Apontamos nossos dedos frios para todo lado

Choram lágrimas contaminadas e sustentam indagações
Sorriem sorrisos amargos e vasculham suas emoções
Fechamos janelas de vidro quando é vermelho o sinal
Por vezes despejamos moedas em uma palma ilegal

Cometem crimes inevitáveis e refletem em suas celas
Voltam às ruas e reencontram suas mazelas
Olhamos torto para as figuras encardidas
Ignoramos toda moléstia por elas sentida

Esquecem o sabor da água e o aconchego do calor
Suplicam algum alimento e quem sabe um cobertor
No inverno mergulhamos em um banho fervente
Preparamos nossa sopa, deliciamo-nos lentamente

Como nômades abandonados deslocam-se pela cidade
Não sabem se o que querem é a morte ou a piedade
Pensamos que é natural conduzir nossas vidas
Não lembramos que há um sistema coberto de feridas

E sentam-se no meio-fio assistindo ao mundo rodar
Culpam-se pela fraqueza de não poderem se levantar
Trancamos as portas da alma pra não entrar o vendaval
Fechamos o coração fingindo que a miséria é trivial