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Sete de Setembro de 2008

(NOTA: este texto foi publicado no livro Universo Paulistano II, da Editora Andross.)

Era uma manhã em que o céu se encontrava indeciso; o sol se escondia atrás de nuvens ralas, que formavam desenhos, obras de arte estendidas na imensidão azul. As árvores quase não se moviam, não ventava tampouco chovia, mas o ar pairava levemente gélido sobre a cidade.



Já não era tão cedo quando eu saí de casa, e as pessoas andavam apressadas pela estação do metrô. Encontramo-nos próximo às catracas. É interessante notar o olhar de estranheza que os passantes lançam aos aglomerados de jovens; é como se fosse um mau presságio, como se algo de ruim certamente fosse acontecer. Redondo engano o deles, essa é a verdade: o dia que nos aguardava revelou muitas surpresas e momentos repletos de esplêndida simplicidade. Além disso, estou certa de que poucos são os adultos - supostamente maduros - que fizeram o que nos dispusemos a fazer.
Tomamos o metrô e descemos à Estação da Luz. Muitos ficaram admirados com a inusitada construção baseada nos moldes britânicos. Comparando-a com as outras estações de São Paulo, a discrepância é berrante. Adentrando-a, sentimo-nos como se estivéssemos na famosa King's Cross Station, na Inglaterra. Mas chega a ser cômico tal sentimento, haja visto que os passageiros amontoados que por ali se acotovelavam em nada se assemelham com os ingleses quando se pensa no aspecto sociocultural. É como se fossem dois mundos distintos.
De lá começamos nossa trajetória, que teve como destaque a rua 25 de Março, a rua Bela Vista, o Pátio do Colégio e o Teatro Municipal de São Paulo. Paramos no Mercado Municipal para um lanche, onde comemos e nos divertimos - eu e uma parte do grupo em busca de uma caixa de morangos que não custasse o olho da cara. No final, sentamo-nos no chão para cantar e tocar com o professor, registrando o momento com algumas fotografias. Lá fora o tempo começava a esquentar.
Mais tarde, quando caminhávamos por uma das ruas do centro - que muito lembravam as nova-iorquinas - deparamo-nos com uma figura próxima à parede, que passaria despercida não fosse o violão negro que portava. Era um homem e ele tocava calmamente, mas não havia alma que se comovesse e fosse contemplá-lo. Com o nosso grupo, no entanto, foi diferente. Pusemo-nos a escutá-lo, demos-lho alguns trocados e até tiramos algumas fotos com o músico, que iniciou uma cantoria alegre e entusiástica. Eu, vendo-o ficar para trás a cantar, sorridente, senti que aquele instante valera meu dia, minha semana, meu ano.
Pudemos, também, observar a diversidade de pessoas que circulam pelo centro da cidade, bem como toda sorte de construções: edifícios, bancos, hotéis despedaçados. Sentimos o desagradável odor da sujeira, da poluição, do ser humano; sentimos o aroma da vida urbana, dos conglomerados, da cidade grande onde se chocam refinados executivos e mendigos à beira da destruição. Sentimos o ar do progresso desorganizado mesclado à desgraça social entrar pelas nossas narinas e balançar nossos corações, tão débeis diante da grandeza problemática do lugar onde vivemos.
Vimos também uma exposição dedicada ao escritor Jorge Amado. É admirável a forma como os novos artistas demonstram seu encanto por um outro utilizando-se daquilo que sabem e gostam de fazer; no caso, eram belíssimos quadros e esculturas que remetiam às obras literárias do escritor.
Assistimos à uma performance, uma espécie de arte visual. Visitamos o Pátio do Colégio, onde foi levantada a primeira construção da cidade de São Paulo e a Igreja fundada pelo padre Anchieta. Lá, o professor foi censurado por algumas explicações que deu sobre a Companhia de Jesus. Aquela cena me fez sentir como na Idade Média - só faltava surgirem os carrascos da Inquisição para enforcá-lo!
A última parada foi numa singela lanchonete, onde realizamos um delicioso piquenique, trocando experiência e sabores. Havia bolo, torta, sanduíche vegetariano, pão de queijo, chocolate, quibe de assadeira. Conversamos, rimos e comemos por um bom tempo. O que sobrou, doamos aos moradores de rua. Brindamos com Coca-Cola e copinhos descartáveis ao dia emocionante e memorável, que certamente nos permitiu um notável crescimento humano e cultural. ®