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A letra fora do alfabeto?

Sempre corri contra uma força que não entendo e em direção a um cais desconhecido. Acho que fujo da banalidade. E, no fim, esbarro na verdade inescapável: quero o que todos querem. No fim, apesar de tudo, sou só mais uma. O fato de desejar o peculiar me torna comum e eu o seria mesmo se buscasse o contrário. É uma barreira instransponível - é como cobiçar a inatingível perfeição. E desistir da perfeição talvez seja meu maior desafio. Não existe um lugar só meu. A vida é pública, o mundo está escancarado e é improvável que eu consiga privatizar caminhos que trilhei. Para que busco a singularidade é o que não entendo. Por que vejo as pessoas como uma grande massa compacta de ideias e absurdos? Eu não sei. E o fato de achar que sou o coringa do baralho, a letra fora do alfabeto, o verso arrancado do poema não significa que eu me veja no alto, entende? Oscilo entre a inferioridade e o patamar geral. Afinal, somos todos diferentes, não? Cada indivíduo enxerga em si aspectos que julga não haver em mais ninguém e desta forma pensamos todos iguais. E erramos todos juntos. Porque somos todos uma substância só e paralelamente uma infinidade de pontinhos incomuns, todos formando o vasto complexo da humanidade. Viver implica muitos verbos. E pensar desgasta a emoção. Seguir princípios? Definir padrões? Há fases em que me parece adequado, mas confesso que não passo de uma grande hipócrita. Eu e você. Moldando visões de mundo para que se identifiquem perfeitamente com as nossas escolhas. Para que pareçamos corretos. E é inconsciente. Apenas buscamos o bem-estar e por ele nos tornamos muito dispostos; é o instinto inerente ao ser humano. Não faz sentido nos torturarmos. Não faz sentido seguir regras que nos depreciam. Sou parte de um todo, que devo fazer? Não posso abandonar o universo e me recriar. Só me resta essa vida. Só me restam esses anos. Uma ou todas, eu só quero me sentir bem. E para mim basta.