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Quando o Anjo Subiu

E quando o anjo subiu, tiveram que cortar a árvore, tirar os móveis, limpar as paredes. Jogaram fora a vitrola velha e os discos de vinil eu nem sei que fim tomaram. Quando o anjo subiu tanta lágrima escorreu, tanta foto desbotou, tantos sorrisos eu esqueci; o mercadinho lá em cima também não lembro qual o nome nem qual era o preço dos pãezinhos na época.

Mas me recordo das vezes que jogamos baralho e eu perdi, me recordo dos cafés da manhã e das noites que passamos em frente a televisão, silenciosamente concentrados. E junto com o anjo subiu parte considerável do meu passado, subiu minha infância.
Não sei como que é que anda o quintal - se ainda existir, tenho certeza de que o anjo ainda o observa, lá das nuvens. Tinha uma árvore no telhado também, é! Acabei de me lembrar! Com certeza se desfizeram dela - é uma pena, pobre plantinha.

Lembro que a TV não tinha controle remoto e que às vezes entravam insetos asquerosos por debaixo da porta dos fundos, eu tinha pavor, corria logo a procurar meu anjo, que vinha descalço com o chinelo ou sal nas mãos para me defender.

Quando o anjo subiu, guardei algumas de suas roupas nas minhas gavetas e uso até hoje para dormir e lembrar do conforto dos seus olhos marrons e aguados.

Quando o anjo subiu, tive que ir à igreja - ainda não entendo muito bem tudo isso, só sei que chorei copiosamente e abracei minha mãe, queria tanto o meu anjo, tanto, e nunca mais iria vê-lo, tocá-lo, e sentindo o peso e a angústia desse fato, consumado, irreversível, vi homens grandes sucumbindo às lágrimas e todos nós partilhávamos do mesmo sofrimento.

Eu vejo fotografias esporadicamente, é verdade - mas tento não me apegar às lembranças materiais por um exercício de bem-estar.

Minha mãe disse que um dia viraria uma saudade gostosa e hoje de fato é assim que funciona, como todos os momentos, pessoas e sentimentos bons que tive e não tenho mais. Tento viver o presente e estar no presente, é fundamental.

Quando o anjo subiu, descobri que sou forte, sim, como eu sou forte!, eu ando, como e falo mesmo tendo perdido uma parte de mim, uma parte que vai estar sempre lá em cima, no céu, em outro plano, coisa assim, não sei onde exatamente, mas não importa: um fragmento se soltou de mim e flutua por aí, e mesmo assim eu vivo! Eu respiro! Porque sei que o tive. E isso me basta.

Eu sei que um dia ele se irritou com a minha teimosia e apontou a mangueira de água na minha direção, eu estava de vestido e fiquei encharcada, abri um berreiro, mas tudo bem, eu mereci, e eu era louca para ir na lojinha de um real, era uma espécie de oásis para mim, adorava juntar moedinhas e comprar canetas ou objetos inúteis, ele não gostava muito de me levar lá por causa da localização, é, era um lugar não muito seguro.

Eu acho que eu lembro do seu cheiro. Do cheiro da sua pele. Eu lembro de uma pinta no seu rosto. E seu cabelo curto. Lembro da aspereza do seu cabelo. Eu lembro que seus lábios eram úmidos. E suas mãos muito lisas, bem diferentes das minhas. Muito ressequidas também. Eu lembro da sua altura. Hoje eu talvez tivesse que inclinar a cabeça para baixo para olhá-lo. Não consigo me recordar como era a sua risada. Sua voz me soa muito vaga hoje em dia.

Quando o anjo subiu, aprendi o que é nostalgia.
Quando o anjo subiu, senti a fragilidade da vida.
Quando o anjo subiu, eu escrevi no meu diário.
E toda vez que leio aquela página me dá um aperto doentio no coração. Eu tinha doze anos.

Quando o anjo subiu, eu não me despedi fisicamente. Eu não sei com precisão qual é a sensação que tenho quando vou ao cemitério.
Tem flores lá.
O anjo cultuava as flores.
E tem muitas flores, em todas as direções.
Flores e um espacinho de terra para onde nós olhamos como se fosse algo vivo. Algo que pode nos ver. Que pode nos ouvir. Desculpe, eu não acredito. Caramba, eu não acredito, mesmo que eu queira. Vem do coração e se perde em alguma dimensão abstrata, fora da minha compreensão. Eu não o ouço.
Eu queria ouvir, às vezes.
Às vezes, não.
O passado, o concluído, me dá um pouco de medo, entende?

E quando o anjo subiu, eu cheguei a querer ir junto. Pela primeira e única vez na vida, senti por alguns segundos que ficar aqui não valeria nada. Eu quis ir. Admito, eu quis ir.

Mas hoje eu só quero ficar. Quero ficar para poder fechar os olhos, fechar os olhos e imaginar meu anjo de asas brancas voando acima das nuvens.
Eu sinto a sua falta.




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Carta - Por Eduardo Trindade


" Hoje faz anos que te foste. Aniversarias. Comemoro? Certas datas não se comemoram, por mais marcantes que sejam, ou surpreendentes, ou inebriantes. Não me acostumei ainda ao silêncio da tua cadeira de balanço. Lembras como balançavas, e rangias, e fazias tremer o assoalho? É difícil se acostumar a certas ausências. Pensava que durarias para sempre, mas ensinaste que nada é para sempre. Ensinaste da maneira mais dolorosa.

Lembras-te das nossas brincadeiras? Eras criança em teu corpo de vovó. Eras a criança mais travessa dentre todos nós. Mas os adultos confiavam em ti, confiavam-nos a ti. Mal sabiam que rolavas conosco pelo chão, empanturrava-nos de doces e inundavas a casa em guerras d’água. Quando voltavam, tu inventavas histórias para tranquilizar os adultos! Éramos todos anjinhos.

És hoje o meu anjinho. Não sei, para falar a verdade, quando é o aniversário da tua partida. Sem tua presença, os dias se confundem. E eu, sem ter uma criança-adulta com quem brincar, acabei crescendo. Virei um adulto procurando em mim a criança que foste. Brinco em tua homenagem, faço traquinagens à semelhança de ti. Lembranças? Esforço-me para não esquecer, e de repente te ouço no rangido do assoalho quando atravesso a noite. Buscando me encontrar, reencontro-te."