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Por que escrevo?

Há vezes em que reflito e tento encontrar quais os motivos que me impulsionam a escrever. Entendo que é uma resposta que metade do mundo tentou e ainda tenta buscar. Muitos já se arriscaram a explicar, justificar por que diabos brincam com as palavras, por que cargas d'água são tão facilmente magnetizados pela linguagem escrita. Suponho que as conclusões sejam sempre as mesmas.


Sob certos aspectos é estimulante mas ao mesmo tempo frustrante saber que as obscuras razões que me instigam a produzir são análogas às que levaram Camões, Drummond ou Clarice Linspector a deixarem como legado obras imortais. Eles sentiam, questionavam, tinham a necessidade de se inserir na história do mundo como eu tenho hoje. Só que hoje é muito complicado, entende? O que quer que eu escreva, nunca será pela primeira vez. O que quer que eu pense, alguém já pensou antes de mim. Até mesmo a ideia de que a originalidade é algo tão inatingível quanto à perfeição já fez e faz tantos outros se debaterem por dentro e chegarem mesmo ao ponto de se indagarem qual a finalidade de escrever.

Mas se não fosse através das palavras, com o que mais eu poderia me pronunciar?

Minhas fantasias e o modo como transformo minhas perspectivas em poesia não são inválidos só porque alguém já o fez antes.

Existe algo nas palavras que despejo que nunca existiu e nunca existirá em texto algum: o fato de eu estar escrevendo agora, neste segundo, sobre este tema, e ser eu a escrever, e não Camões, ou Drummond, ou Linspector. Sou eu, com as minhas leituras de mundo, que podem ter um quê de comum com cada um deles, mas, de um modo geral, há de se concordar que sou única, que eu e somente eu estou sentada na minha cama agora, ligeiramente inclinada para a frente, sentindo os efeitos da falta de postura, os cotovelos apoiados nas pernas que vestem uma calça rosa de moletom, em um quarto escuro onde dorme tranquilamente a minha irmã - a irmã que apenas eu tenho. Somente eu tenho estes olhos desta cor que enxergam a vida desta forma e somente eu tenho esta alma, este espírito que sente e interpreta os fatos e somente eu tenho estas mãos que manipulam as palavras sem nunca poder realmente tocá-las. Apenas eu.

E se eu e tantos outros artesãos das letras nos abstivéssemos de escrever por termos a penosa consciência de que tudo o que produzimos é mera repetição, deixaríamos um grande buraco na história. Um vácuo desastroso, diga-se de passagem. Imaginem só se no século XX nossos autores decidissem não escrever alegando que a literatura já está saturada, que já não há mais sobre o que discorrer. Seria uma tragédia!

Por isso que nunca pensei em desistir. As palavras me sustentam. A escrita me alivia. Imersa nesse furacão de imagens, sublinho o que me desperta a atenção.

Eu preciso disso. Eu não sei por quê, honestamente, eu não sei por quê.

Mas eu preciso das palavras.