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Poema (Quase) Ininterrupto - Como as Águas de Outubro

águas de outubro, desaguando em ruas inclinadas, enchendo bueiros e rios, atacando guarda-chuvas, atingindo os telhados, como pedras, escorrendo pelos vidros, como lágrimas, as águas de outubro e os pneus deslizantes, luzes que se apagam, janelas que se fecham, e a chuva vem, a chuva vai, o dia nasce, o dia morre, a vida passa, sirenes e buzinas anunciando o caos, canção de ninar ao anoitecer, suspiros de incômodo ao pisar na calçada, águas de outubro girando os moinhos do tempo, o ponteiro se movendo, eu escrevendo e a hora passando, o mundo rodando, o mundo acabando, a chuva caindo e eu envelhecendo, os carros correndo, as flores murchando, águas de outubro rolando e eu respirando, o tempo voando e eu imóvel aqui, ali, acolá, inquieta em mim, o corpo inerte e os sentidos eufóricos, explosivos, e as águas de outubro regurgitadas pelo mar, que eu não vejo, eu imagino, a imaginação levada pelos minutos, agora se esvaiu, sumiu, onde está? águas de outubro que varrem a paz, que em suas ondas trazem incertezas, insinuam a impotência, minha incapacidade de conter as águas de outubro, avassaladoras

- porém no reflexo das águas, no reflexo das águas de outubro eu me vejo, eu me reconheço, eu entendo, eu sinto,
cada primavera,
cada outubro melhor do que o anterior