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Leve Encanto

Peguei o metrô pela segunda vez nesta semana. Ah, é, eu ainda me sinto um pouco alheia à toda essa agitação de São Paulo, porque é inegável que tenho vivido nos limites fronteiriços do meu bairro. É provável que no próximo ano - caso ingresse numa universidade - eu comece a fazer parte das grandes multidões hipnotizadas pela pressa que vão e voltam durante todo o dia. Enquanto isso, permito-me a sensação de surpresa e, de certo modo, encanto, quando abandono o conforto do Tatuapé para visitar lugares mais distantes.


A atração da vez foi a Sé às 18h. Horário de pico. Não sei o que há comigo, mas eu sorri quando vi aquelas, não sei, mil pessoas? tentando chegar até a porta do metrô. Nunca lhes ensinaram que dois corpos não ocupam o mesmo espaço? Meti-me naquela confusão e tive que tirar um dos fones do ouvido porque queria escutar o que elas diziam e gritavam.

Mandaram um metrô vazio. As pessoas comemoraram como se fosse um gol. Eu quis rir, mas achei que pareceria bobagem da minha parte. Limitei-me a esboçar um sorriso amarelo para uma moça que dizia 'nossa, quase levaram a minha bolsa!'. Fui naturalmente arrastada para frente, impedida de mover meus braços. Queria trocar a música do mp3, mas, infelizmente, não era possível. Temi que ficasse à beira dos trilhos. Talvez por um trauma infantil, tenho pavor deles! Que morte estúpida deve ser esta, atropelada por um metrô!

Prestava atenção ao cheiro, o cheiro da multidão, o cheiro de suor de quem acorda, trabalha e dorme, dia após dia. Daquelas incontáveis pessoas que ali se encontravam, quantas tinham os mesmos gostos que eu? Para onde estavam indo? De onde estavam vindo? Finalmente consegui entrar. Reparei num pequeno livro que a moça ao meu lado lia, mesmo esmagada no meio do corredor. Era alguma coisa sobre Testemunha de Jeová. Na página que estava aberta, uma pergunta: 'Por que devo me batizar?'.

Umas pessoas conversavam alto, outras ouviam música. Dormiam com a cabeça pendendo para os lados, ou ficavam mergulhadas em silêncio profundo, olhando a paisagem passar... A paisagem que surgia do outro lado do vidro. Os postes, os prédios, as casas, os comércios, os carros, as pessoas, a Lua crescente no céu corriam em direção contrária. E eu me perguntava: quem segue mais depressa, eu ou o mundo lá fora?