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Palavras como presentes

Não me basta a combinação persistente de metáforas cuidadosamente pinceladas em versos, prosas ou canções, tão presentes nas minhas escritas,

não me bastam as figuras de linguagem, as conversões espontâneas de expressões vindas de dentro, não me basta dar trégua à imaginação e compor incessantemente com o coração,

o dilema das palavras é sempre o precursor das minhas filosofias baratas,

(ora dizem tudo, ora nada - tenho dito)

é clichê destacar que seu olhar, seu sorriso ou seu abraço desbancam todas as letras do meu estimado mundo literário - é quase piegas, uma afronta à originalidade!

se passo longos intervalos de tempo sem produzir é porque na alma a balbúrdia é tão intensa que alcança uma espécie de torpor, quando a realidade se espalha por meu corpo e tinge meu sangue, como se eu talhasse em meus ossos, como se escrevesse em mim,

como se escrevesse em mim que é você quem me inspira e que não é preciso dizer repetidas vezes, não é preciso registrar o tempo todo - quero mais é viver!

faço um livro inteiro antes de dormir, um livro inteiro na minha mente,
e quando acordo, vejo o sol que nasce ao longe, acordando o céu para um novo dia, e penso que você me deseja 'bom-dia' quando finos raios quentes me tocam a pele,

você me encanta o coração,

você,
quando pisca os olhos perto de mim faz meu chão sacudir todinho, pareço criança encantada com o primeiro arco-íris, é puro estremecimento de beleza, são pupilas cintilando, o coração tão trêmulo de um espanto suave,

você,
ao sorrir de boca e alma tão confortavelmente desajeitado, incomodado com os dentes separados que me divertem (eu os adoro!), tão inconsciente da calmaria com que me presenteia ao mover de lábios vermelhos, há alguns meses donos dos meus, positivamente senhores dos meus!

não sabe que o gramado verde que piso ora aqui, ora ali, que a lua - como uma lâmpada potente e ininterrupta que se perdera no céu - de todas as noites, que a chuva, ou o sol, que os risos roubados no metrô, as paisagens em alta velocidade ou a música no volume máximo, que a água gelada no calor ou o banco sobrando no ônibus, que os melhores livros e as melhores palavras, que tudo que há de restritamente amável no meu mundo - tudo isso me traz você?

há você,
há você, sim, mesmo quando teoricamente se faz ausente,

mas cada passo dado pelos meus pés é um passo dado ao seu lado, e segurar a sua mão todos os dias é tão necessário quanto dormir, comer ou respirar - de que adiantaria o corpo metabolizando se o coração estivesse a cochilar?

ah, pois é,
meu coração é definitivamente paulistano, não dorme nunca - você é a canção que o mantém acordado e mais: o mantém pulsando feliz como uma garotinha pulando corda em uma tarde de primavera, em um ritmo frequente de alegria,

alegria!
por vezes o termo me soa tão juvenil, mas seu significado é insubstituível no meu atual período de viver, não há palavra que o valha, todas as outras remeter-se-iam ao sentido idêntico e - ora! para que tanta enrolação?

se o que vim dizer é apenas que por você a minha inspiração tem incendiado de modo implícito, tão vivamente que é quase impossível traduzi-la como sempre o fiz, porque texto algum o faria de maneira fiel, os meios exteriores de transcrever o que sinto são falhos e estão despreparados para tamanho sentimento pipocando no meu peito,
os verbos, os poemas, as descrições desconhecem o meu amor, embora o considerem,

que sabem as palavras a respeito dos nossos abraços, nossos instantes? que sabem as palavras sobre as músicas que tocam dentro de cada um de nós ao cruzar de um olhar apaixonado? não sabem nada, só sabem dizer, e dizer não basta, não basta!

há uma distinção muito extravagante entre sentir e discursar sobre o sentimento,

quando a maioria dos textos tende a exagerar os sentidos, meus sentidos tendem a exagerar os textos, e nada do que leio ou escrevo se assemelha ao estado de graça que se instalou em mim desde que você discretamente passou seu braço por cima dos meus ombros e me puxou para pertinho do seu corpo, para que eu conhecesse um pouco mais sobre seu perfume e os traços definidos do seu rosto,

eu particularmente gostei, confesso,

se não fosse sua ousadia não sei que raios estaria fazendo agora,

escrever para você é assustadoramente prazeroso,
pensar em você é assustadoramente confortante,
saber que você existe me amansa os ânimos,

e saber que a qualquer momento vou ouvir sua voz - sua voz, o som que meus ouvidos anseiam escutar! o som que pelo qual meus ouvidos suplicam! - é extraordinariamente digno de agradecimento,

você é o meu grande show, meu violão de doze cordas, meu solo de guitarra, meu pedacinho de anos oitenta cantando com o rosto colado no meu, com a alma colada na minha,

e no entanto em plena liberdade! a plena liberdade de amar - maior e inquestionável direito humano!

você,
minha euforia, minha folia, meu carnaval, minhas notinhas musicais flutuando abstratas nos cantos do meu quarto,

minha metade,
minha verdade,

ofereço palavras gastas, repetidas ao longo de séculos, talvez milênios, sobre um sentimento que sempre existiu, e que me consome,

meu amor, aceite-as!
aceite-as,
como um pequeno complemento de tudo o mais que posso oferecer como prova dos meus sentimentos,
que são seus sentimentos, são para você,
minha maior inspiração ®