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Inércia

Foi durante o dia, logo após o almoço, que ela tomou o elevador e desceu. Olhou de esguelha para o céu, pensando sozinha nos seus problemas e suas tarefas. Dali cinco minutos estaria no trabalho. Ah, que preguiça... Mas, antes mesmo de deixar o condomínio, deparou-se com uma cena que a fez despencar em seu profundo poço de reflexão. Era impressionante. Talvez tivesse uma espécie de vício, mas... O cotidiano lhe despertava um sentimento louco, irrefreável, que conduzia seus pensamentos até a mais infinita divagação.


Ela viu um garotinho de nove ou dez anos de idade sentado nas escadas da entrada. Distraía-se com um aparelho celular ainda mais avançado do que aquele que ela mesma possuía. Não era isso que a incomodava. Mas o lindo e iluminado dia de sol, sem nenhuma nuvem cobrindo o céu, que ele ignorava sem culpa. Só de pensar em gastar o precioso dom da visão numa tela de três centímetros quadrados e concentrar toda a atenção em um joguinho qualquer, ela sentia seu crânio comprimir o cérebro. Era demais.

Ah, se ele soubesse o que é ter o tempo limitado, contado, dividido milimetricamente em uma porção de deveres, aproveitaria essa fase de sua vida para inspirar bem forte o ar que o cerca, até encher os pulmões, quase a ponto de explodi-los... Porque ele não precisava ter pressa para respirar, porque não precisava se preocupar com cada minuto que regia sua rotina, não precisava acelerar os passos para não se atrasar. 'Não por enquanto...' Se soubesse o que ela julgava saber, brincaria mais, junto à natureza, com seus amigos. Não ficaria sozinho enquanto pudesse. Não desperdiçaria um minuto sequer.

Mas quem era ela para classificar o que é ou não uma perda de tempo?

Não queria, de modo algum, usar o que acabara de ver para justificar suas fraquezas. Ela não tinha a intenção de reclamar da sua realidade, porque sempre soubera que, a cada ano que passasse, tudo se tornaria um pouco mais complexo. E seu maior desafio era conciliar as preocupações do mundo adulto com suas fantasias de criança. Era transformar o que chamavam de obrigação em satisfação. Queria levar ao pé da letra o famoso conselho 'carpe diem'. Queria que os estudos, o trabalho e qualquer coisa que independe de sua vontade se tornasse uma fonte de crescimento pessoal e diversão. E que desafio...

Flashs, flashs. É como um de seus professores dizia sobre si. A mente funcionava em frações. Imagens surgiam muito rapidamente. O pensar era mais ágil do que o piscar dos olhos. Um impulso que o estimulasse, e estava feito o estrago. Um pensamento puxava o outro, e o outro, e o outro... E era quase impossível parar.

E descido o último degrau das escadas, depois de refletir sobre o garoto e o seu celular, surgiu na rua outra figura para lhe inquietar o espírito. O odor que exalava era extremamente desagradável - um misto de suor, urina e fracasso. Cabelos sujos e embaraçados, a barba por fazer, as roupas em péssimo estado. Pés descalços pisavam a calçada quebrada, os cacos de vidros que a humanidade derramava no chão desde... Ela não sabia dizer.

Era um homem, e era adulto! Certamente tinha mais do que vinte e cinco anos. As visões se mesclavam... O menino recém apresentado ao mundo, bem vestido, limpo, nutrido, saudável, cheirando à essência de infância, de repente se transformava no mendigo, miserável de corpo, fétido, imundo, despedaçado. E já era incômodo para ela pensar nisso. Olhava a si mesma. Tinha uma família unida, amigos verdadeiros, um amor indestrutível, um lar, comida na mesa e cama macia todos os dias. Tinha estudo e tinha até um emprego, um emprego! Por que ela, por quê?

O que fizera para merecer mais do que aquele homem? Se, quando nasceram, eram tão semelhantes... O corpinho nu, a boca aberta em um choro estridente, a alma tão pura quanto se possa imaginar, o medo de ser lançado à vida incravado no coração pequeno que batia desesperado. No instante que procede o nascimento, qual foi o fator fundamental para tornar a história dos dois seres tão absurdamente distintas anos depois? Se ambos eram tão frágeis e se o livro de suas almas ainda nem começara a ser escrito, o que é que, naquele dia ensolarado, fazia com que suas realidades tivessem entre si um abismo de distância?

Ela almejava poder ajudá-lo. E ajudar todos os que viviam na mesma situação. Não lhe interessava, naquele momento, saber de quem era a culpa. Só pensava que era hora da humanidade dar as mãos, lembrar-se da 'igualdade, liberdade e fraternidade'. Só pensava em interromper todas as guerras e chamar a atenção de todo o povo para, mais uma vez, questionar. 'Olhem este homem! Ele tem uma mente, um coração, um espírito. Ele tem pensamentos, desejos, vontades, necessidades. E por que ele está sendo privado de tanta coisa? Quem decide o que ele pode ou não pode ter? Quem é que faz as regras aqui?'.

Seus passos foram pesados ao cruzar o caminho com o mendigo. Ela abaixou a cabeça. Como deveria agir, afinal? Ela seguiu com suas roupas bem lavadas, seu corpo alimentado, seus tênis protegendo os pés do atrito com o chão. E o homem de olhar sem brilho e existência sem respeito continuou o seu caminho.

Ela não fez nada além de pensar.