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Passagens

Hoje é preciso perder para amanhã poder ganhar - disso eu já sei. Mas eu não termino minha partida com sabor de derrota nos lábios, eu sei que o jogo ainda não terminou e ainda posso trilhar esse tabuleiro com meus próprios pés. Não me abate o fim de uma batalha não vencida e eu aponto meu canhão, se necessário. Eu sou o exército todo, entenda: posso lutar sozinha e todos os dias meu escudo reluz sem hesitar. Não é porque tenho inimigos que vou deixar me intimidar; tenho ainda os papéis, as manchas e as sinapses acontecendo incessantemente, tenho os punhos e tenho ele, o coração - estou segura. Posso dançar valsas alheias e assobiar o que não vem de dentro, mas a essência, a célula primária se mantém intacta. Nos meus olhos reside uma espécie trivial de paradoxo: oscila entre a transparência e a ausência de sensibilidade - pois é, isso pode mesmo acontecer às vezes.


Mas de uma noite épica nasce o meu dia lírico, e eu retorno às leituras de faces e diálogos, de paisagens e de todo o acervo visionário. É um processo delicado de conversão, involuntário e bem-vindo. Sei que sofro pela minha particularidade e talvez seja esse o maior indício da minha força. Ainda de joelhos agarrados ao chão, presumo que me fiz mais verdadeira, embora errante e sem constância. Não é que o medo venha de encontro à mim, só me vejo mais e mais sustentável e não vou esperar até amanhã para me levantar. Hoje é, fatalmente, o princípio e o fim.