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Lutando contra a chuva

Foi por muito pouco - quase permiti que a chuva me cobrisse com seu tempero de melancolia. Lembro-me das noites - ainda esta semana - em que a lua brilhava muito no céu, e alguém me disse que se eu usasse óculos, veria-a muito menor. Não importa. Eu sei é que agora ela está escondida atrás de nuvens carregadas; enquanto escrevo faz silêncio, as gotas cessaram, mas não me esqueço do ruído que fazem ao tocar o topo dos edifícios, os vidros dos carros, não esqueço o som dos pneus deslizando nas ruas molhadas e a cidade cinza em um dia como hoje é quase uma prisão. Mas entenda: libertar-se é só uma questão de vontade, e eu poderia, se quisesse, inclinar-me para onde meus sentimentos me conduzem, que é geralmente a angústia. Sei que não sou a única. Ter uma vida é carregar uma bagagem cheia de bugigangas (comumente conhecidas como experiências) que nos puxa para trás, que tenta nos fazer cair. É preciso ter muita força, é preciso disposição, esquecer as dores nas costas e nos ombros, de vez em quando mudar a posição, levar a mala nas mãos, na cabeça - não importa. Não deixar a bagagem cair, nem deixar que ela nos derrube. Ah, err, não estou querendo me envolver com auto-ajuda, dar conselhos ou fingir que eu sei qualquer coisa sobre o fato de viver. Apenas apreendo assim os fatos, e organizando os meus pensamentos, chego a algumas conclusões, que nem sempre duram muito tempo, mas e daí? Nada dura para sempre mesmo e quem disse que uma ideia sobre qualquer coisa deve durar?


É, parece que a chuva acabou agora: quanto tempo o céu vai suportar ficar sem derramar algumas lágrimas? Porque acho que ele chora também, entende? Tem que presenciar todo tipo de cena, fica acima de tantas atrocidades, dia e noite, sem descanso. Deve doer um pouquinho, não? Por isso tenho sorte, estou aqui e posso fazer o que eu quiser, posso dar a ele o orgulho de alguns sábios passos, algumas conquistas, uns sorrisos para preencher o vazio de ser um céu e não ter escolha, apenas ser céu, extenso e pálido, interminável e inorgânico. Céu, tenho falado tanto de ti, não? A que se deve tanta inspiração? O mundo para mim agora é uma porta aberta, um toque em minha mão e me sinto cheia de energia para correr, correr por verdes campos, correr do perigo, correr atrás dos meus sonhos. Correr, sim, porque ficar parada me inquieta, é impossível; é essa tal de juventude, essa vitalidade que fica pipocando nos corpos sadios antes dos vinte, quem sabe até os trinta, ainda não sei...
E tem tanta coisa que ainda não sei, como o por que de tantas mudanças dentro de mim, como se minhas paixões fossem nômades. É algo muito louco mesmo, não há outra palavra que eu possa usar, posso não acreditar em quase nada, mas de uma coisa eu sei: há um mistério. E um mistério que envolve toda a minha alma, e por isso me faz mutante, metamórfica, eu não sei, não consigo ser eu mesma por mais de um dia e mesmo assim sinto que sou a mesma desde que nasci. Sim, são grandes viagens que se esbarram e interceptam, alucinações e fantasias, não entendo e me sinto impotente, mas se entendesse minha estrada já teria acabado. Então é isso: você leva a vida sem poder compreender, busca respostas, e quando seu estoque de ponderações estiver respondido, quando sua fome for saciada, tudo estará concluído. Não, não, não, não quero conclusão, por favor! Quero ser um romance sem fim, um livro sem últimas páginas, envolto em mistério eternamente, deixando sempre meu ponto de interrogação para os que vierem depois de mim.
Olha só, eu disse, é uma questão de vontade. Por alguns minutos tudo me pareceu complexo e oblíquo, mas é só eu me esforçar e tudo fica cristalino. Não tenho todo o controle, mas tenho algum controle, e a minha paz interior, ah, essa só depende de mim. Pode continuar.