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O grande mistério

É, andei pensando - o resto é realmente um grande mistério, mas você sabe que já não tenho mais tanta certeza quanto ao inverno, afinal? Frio, frio, que se entende por frio? Pode estar um ventinho fresco lá fora, daqueles que racham o lábio e deixam nosso nariz parecer fucinho de cachorro; a gente tenta se aquecer debaixo do cobertor e toma um leite quente, fecha todas as janelas e esfrega as mãos... Mas isso tudo se trata de algo sólido, físico. Nem sempre o inverno tem a capacidade de penetrar os poros da pele e deixar o coração salpicado de neve. Mesmo nos dias cinzentos - como já comentamos - é possível encontrar uma lasca do azul, é possível trazer conforto pra dentro do peito. E eu digo que essa não é a pior estação, não, de modo algum! A gente usa o pretexto do frio para se aproximar das pessoas, e nessa história acaba roçando em um fulano, um sujeito profundo que cospe umas palavrinhas ferventes e de tão emocionada, de tão comovida, a gente deixa as palavrinhas pularem nas palmas das mãos e depois as guardamos no bolso da blusa. Blusa de frio, é claro.


São dias peculiares. As pessoas usam sobretudos, cachecóis, luvas - é tão bonito, entende? Pode não reinar aquele frio polar aqui na balbúrdia do hemisfério sul, mas é bacana, você sabe, até eu aproveito para me vestir um pouco melhor, na medida do possível. Mas não se trata do clima, ou das roupas. No alucinante mundo interior pode ser verão o ano todo. É só acionar o botão, veja bem, há uma espécie de controle de temperatura, como aqueles botões de volume. Por que o inverno parece ser mais correto? Ou o outono? A não ser que você queira deixar a melancolia abandonar a selva da sua vida junto com as folhas quebradiças e amareladas - aí sim. De todo modo, leve o carnaval. Leve o carnaval no coração o ano todo, por favor, faça isso por mim. Festa, brilho, cor e música; por que não? Quantos anos você acha que vai viver? Ah, particularmente não quero deixar passar, até quando a juventude vai poder me acompanhar? Daqui a pouco me olho no espelho e as rugas vão me dar muito mais do que um aviso de que a beleza vai acabar - elas vão dizer que a vida vai acabar, a vida!

Eu não preciso esperar meus ossos ficarem frágeis, nem o meu fôlego se esvair. Não preciso esperar os cabelos brancos e nem a percepção que alguns têm quando estão quase partindo. Não posso eu sentir o mundo, tocar o mundo, devorar o mundo agora mesmo? Agora tudo está se movendo, tudo está colorido, tudo está quente - eu acabei de sair do forno, sabia? E a vida ainda me parece uma grande novidade. Todo dia. O tempo todo. Não demonstro, não é mesmo? É, eu sei, às vezes acho que sou uma máquina de ideias e sensações escondida em um cofre. Uma infinidade de mecanismos trabalhando sem parar, mas em um esconderijo, não sei, talvez oculto entre os prédios, entre as obras, ali, esquecido, como um cientista maluco e suas invenções, que nem sempre funcionam, mas, ainda assim, ele continua a criar...

Mãos úmidas e o coração hiperativo, acho que é o que eu tenho. Francamente eu não sei se eu peguei a estrada certa, só sei que nunca mais encontrei a placa do retorno, e que nesse caminho eu vejo rosas e espinhos, eu vejo o céu e vejo o inferno, eu sinto dor e eu amo. Então é isso? Oh, não me importa que não seja. Meus pés não vão dar meia-volta, não mesmo.