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Da Janela

Todos os dias, ao amanhecer, seu sono é interrompido pelo som indecente do despertador, agressivo, insistente, dispersando as imagens de seus sonhos - sonhos de que ela nem se lembra ao acordar. Coça os olhos brandamente, boceja, senta-se na cama e faz uma tentativa - sempre em vão - de contemplar o céu através da janela de seu quarto. Não consegue enxergar mais do que dois centímetros. Uma coleção de prédios altos impedem sua visão. A rede de proteção a obriga a ver tudo em seus moldes quadrados, retos, regulares. Mas que coincidência... Ter que ver somente o que lhe é permitido, da maneira que lhe é apresentado.

Não. Ela quer ver mais. Ela quer ver para onde as nuvens estão indo, de onde o sol está nascendo, para que lado os pássaros estão voando. Inquieta, enroscada entre seus lençóis e indagações, quer se livrar das grades e dos muros de concreto que escondem a beleza da vida, que lhe roubam a doce paisagem da verdade. Ela quer ver além, muito além. Além da janela, da rede, dos prédios, das nuvens, do sol, do céu, do coração...

O que ela quer ver, não existe.

Mas ela continua procurando. Incansavelmente.