Avançar para o conteúdo principal

Confissão de que a vida não basta

Se, segundo Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta, estarão os adoradores das letras eternamente condenados à insatisfação? Porque eu simplesmente mergulho na emoção de escrever e sei que o faço melhor quando as angústias interiores me instigam a expressar, através das palavras, o que não pode ser exprimido de nenhuma outra forma.


Então, se ultimamente tenho me sentido completa e saciada, inspirada e promissora, eu devo me abster de escrever?
Os melhores poetas e autores que conheço, mesmo que tenham uma leitura positiva da vida, declaram seus pesares ou desgostos com o mundo em textos nobres e comoventes, que soam muito mais verdadeiros do que aqueles que falam de felicidade ou amor perfeito, pois todos nós sabemos que ninguém é integralmente satisfeito - sempre nos falta algo, sempre nos escapa uma oportunidade, sempre desistimos de um sonho ou outro.
Se sinto que estou bem comigo, se tenho meu espírito em paz, por que deveria acordar os titãs da revolta, da ira, dos dissabores?
Porque, se escrevo, é para aliviar as tensões.
Se não tenho tensões, sobre o que escrever?
Eu juro que não tenho influências parnasianas: não conseguiria discorrer sobre um vaso, por exemplo. Ou, talvez até o fizesse, mas não colocaria em minhas palavras sequer um pingo de enternecimento. Não se o vaso não significasse algo para mim.
De qualquer forma, você pode estar se perguntando por que raios eu não escrevo sobre as minhas conquistas, sobre a minha paz, a minha ventura. Se me sinto com tanta sorte de vida, por que não falo sobre isso?
Simples.
Sobre amor e felicidade não se discute.
Não se disserta.
Não se versa.
Não se pensa.
Satisfação se sente, meus queridos, satisfação se aproveita, se saboreia...
Satisfação - nós fechamos os olhos e provamos como uma guloseima, como a melhor guloseima que se possa existir...
Talvez eu deva mesmo me privar de escrever mesmo quando a inspiração me faz cócegas.
Ou talvez eu deva me transformar em uma máquina e digitar compulsivamente.
Talvez eu só deva sair por aquela porta e sentir a brisa da noite, olhar para o céu e agradecer mais um dia maravilhoso de vida e energia.
Obrigada.