31 de março de 2010

Em todas as estações

Eu sempre soube que, quando caísse a tempestade, você não tamparia os meus ouvidos para evitar que eu me assustasse com os trovões. Você me levaria até a janela, apontaria para o céu e sugeriria que eu observasse, de olhos arregalados, o relâmpago, aquele lapso de luz avassalador que faz a paisagem estremecer e o coração perder o ar. Você nunca me escondeu dentro do armário para que os meus medos não me encontrassem. Você nunca economizou verdades. Também nunca me poupou sorrisos. E vou dizer: os seus sorrisos me dão a sensação de que, perto ou não, você nunca, nunca deixará de ser a irmã que as mãos da vida, graciosamente, me confiaram como um presente, com direito a cartãozinho e laço de cetim. Um presente de valor indefectível.


30 de março de 2010

Por que escrevo?

Há vezes em que reflito e tento encontrar quais os motivos que me impulsionam a escrever. Entendo que é uma resposta que metade do mundo tentou e ainda tenta buscar. Muitos já se arriscaram a explicar, justificar por que diabos brincam com as palavras, por que cargas d'água são tão facilmente magnetizados pela linguagem escrita. Suponho que as conclusões sejam sempre as mesmas.

24 de março de 2010

Palavras como presentes

Não me basta a combinação persistente de metáforas cuidadosamente pinceladas em versos, prosas ou canções, tão presentes nas minhas escritas,

Confissão de que a vida não basta

Se, segundo Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta, estarão os adoradores das letras eternamente condenados à insatisfação? Porque eu simplesmente mergulho na emoção de escrever e sei que o faço melhor quando as angústias interiores me instigam a expressar, através das palavras, o que não pode ser exprimido de nenhuma outra forma.

Passagens

Hoje é preciso perder para amanhã poder ganhar - disso eu já sei. Mas eu não termino minha partida com sabor de derrota nos lábios, eu sei que o jogo ainda não terminou e ainda posso trilhar esse tabuleiro com meus próprios pés. Não me abate o fim de uma batalha não vencida e eu aponto meu canhão, se necessário. Eu sou o exército todo, entenda: posso lutar sozinha e todos os dias meu escudo reluz sem hesitar. Não é porque tenho inimigos que vou deixar me intimidar; tenho ainda os papéis, as manchas e as sinapses acontecendo incessantemente, tenho os punhos e tenho ele, o coração - estou segura. Posso dançar valsas alheias e assobiar o que não vem de dentro, mas a essência, a célula primária se mantém intacta. Nos meus olhos reside uma espécie trivial de paradoxo: oscila entre a transparência e a ausência de sensibilidade - pois é, isso pode mesmo acontecer às vezes.

Trivialidade da Indigência

Deitam em papelões e perdem sonhos assaltados
Roncam acima do chão, pelo mundo são farejados
Sentimos a repulsa autônoma atravessar a garganta
Por medo encerramos portas de aço quando a lua se levanta

Lutando contra a chuva

Foi por muito pouco - quase permiti que a chuva me cobrisse com seu tempero de melancolia. Lembro-me das noites - ainda esta semana - em que a lua brilhava muito no céu, e alguém me disse que se eu usasse óculos, veria-a muito menor. Não importa. Eu sei é que agora ela está escondida atrás de nuvens carregadas; enquanto escrevo faz silêncio, as gotas cessaram, mas não me esqueço do ruído que fazem ao tocar o topo dos edifícios, os vidros dos carros, não esqueço o som dos pneus deslizando nas ruas molhadas e a cidade cinza em um dia como hoje é quase uma prisão. Mas entenda: libertar-se é só uma questão de vontade, e eu poderia, se quisesse, inclinar-me para onde meus sentimentos me conduzem, que é geralmente a angústia. Sei que não sou a única. Ter uma vida é carregar uma bagagem cheia de bugigangas (comumente conhecidas como experiências) que nos puxa para trás, que tenta nos fazer cair. É preciso ter muita força, é preciso disposição, esquecer as dores nas costas e nos ombros, de vez em quando mudar a posição, levar a mala nas mãos, na cabeça - não importa. Não deixar a bagagem cair, nem deixar que ela nos derrube. Ah, err, não estou querendo me envolver com auto-ajuda, dar conselhos ou fingir que eu sei qualquer coisa sobre o fato de viver. Apenas apreendo assim os fatos, e organizando os meus pensamentos, chego a algumas conclusões, que nem sempre duram muito tempo, mas e daí? Nada dura para sempre mesmo e quem disse que uma ideia sobre qualquer coisa deve durar?

A paz

O inverno, de fato, não desabou em mim tão gélido quanto eu imaginava - sequer nevou nos meus jardins e minhas flores estão intactas, vívidas e tão coloridas quanto o meu espírito ultimamente. Entendo que o regador está nas minhas mãos e eu podia muito bem tê-lo posto de lado e esperado para ver as minhas plantinhas murcharem, para então plantá-las de novo. Mas por quê? Gosto do modo como elas cresceram e do perfume que exala de suas pétalas, gosto do verde cítrico do caule e as folhinhas que tremem tanto quando venta. Por que eu deveria deixá-las partir? Que bobagem, que bobagem.

O grande mistério

É, andei pensando - o resto é realmente um grande mistério, mas você sabe que já não tenho mais tanta certeza quanto ao inverno, afinal? Frio, frio, que se entende por frio? Pode estar um ventinho fresco lá fora, daqueles que racham o lábio e deixam nosso nariz parecer fucinho de cachorro; a gente tenta se aquecer debaixo do cobertor e toma um leite quente, fecha todas as janelas e esfrega as mãos... Mas isso tudo se trata de algo sólido, físico. Nem sempre o inverno tem a capacidade de penetrar os poros da pele e deixar o coração salpicado de neve. Mesmo nos dias cinzentos - como já comentamos - é possível encontrar uma lasca do azul, é possível trazer conforto pra dentro do peito. E eu digo que essa não é a pior estação, não, de modo algum! A gente usa o pretexto do frio para se aproximar das pessoas, e nessa história acaba roçando em um fulano, um sujeito profundo que cospe umas palavrinhas ferventes e de tão emocionada, de tão comovida, a gente deixa as palavrinhas pularem nas palmas das mãos e depois as guardamos no bolso da blusa. Blusa de frio, é claro.

Razão Distorcida

Quantas estrelas viram estátuas de gelo no céu ao findar de uma canção?
Quantas ondas no mar se desfazem quando se dissipa um coração?
Se o arco-íris foi tingido de sete cores
Se o tesouro está guardado a sete chaves
É porque muitas paixões flutuam de continente em continente
É porque muitas paixões levitam e esbarram nas nuvens
E a beleza de tudo que é vida se torna evidente em cada piscar de olhos
Em cada passo de quem encontrou algum sentido em nascer
Em cada passo de quem sabe o por quê de acordar

A letra fora do alfabeto?

Sempre corri contra uma força que não entendo e em direção a um cais desconhecido. Acho que fujo da banalidade. E, no fim, esbarro na verdade inescapável: quero o que todos querem. No fim, apesar de tudo, sou só mais uma. O fato de desejar o peculiar me torna comum e eu o seria mesmo se buscasse o contrário. É uma barreira instransponível - é como cobiçar a inatingível perfeição. E desistir da perfeição talvez seja meu maior desafio. Não existe um lugar só meu. A vida é pública, o mundo está escancarado e é improvável que eu consiga privatizar caminhos que trilhei. Para que busco a singularidade é o que não entendo. Por que vejo as pessoas como uma grande massa compacta de ideias e absurdos? Eu não sei. E o fato de achar que sou o coringa do baralho, a letra fora do alfabeto, o verso arrancado do poema não significa que eu me veja no alto, entende? Oscilo entre a inferioridade e o patamar geral. Afinal, somos todos diferentes, não? Cada indivíduo enxerga em si aspectos que julga não haver em mais ninguém e desta forma pensamos todos iguais. E erramos todos juntos. Porque somos todos uma substância só e paralelamente uma infinidade de pontinhos incomuns, todos formando o vasto complexo da humanidade. Viver implica muitos verbos. E pensar desgasta a emoção. Seguir princípios? Definir padrões? Há fases em que me parece adequado, mas confesso que não passo de uma grande hipócrita. Eu e você. Moldando visões de mundo para que se identifiquem perfeitamente com as nossas escolhas. Para que pareçamos corretos. E é inconsciente. Apenas buscamos o bem-estar e por ele nos tornamos muito dispostos; é o instinto inerente ao ser humano. Não faz sentido nos torturarmos. Não faz sentido seguir regras que nos depreciam. Sou parte de um todo, que devo fazer? Não posso abandonar o universo e me recriar. Só me resta essa vida. Só me restam esses anos. Uma ou todas, eu só quero me sentir bem. E para mim basta.


As Cores e o Nada

Destampa-se o delicado pote de plástico, revela-se o líquido cremoso e seus nuances. É como sorvete derretido, em tons pastéis, firmando um pacto infalível com os olhos. Ingênuos olhos.

É quase inevitável não desejar tocar, sentir, talvez até provar seu sabor amargo e ligeiramente ácido. Conferir, afinal, se alma se beneficia dessa peculiar refeição.

O pincel, então, se aproxima. Provoca ondas de êxtase na superfície lisa. As cores se chocam, se entrelaçam. Círculos de tons e vida se projetam. Refletem no vidro da janela, esteja o sol presente ou não. Refletem nos fascinados olhos. Ingênuos olhos.

Reflexão no Consultório

Reflexão na sala de espera do consultório odontológico.

Um ambiente agradável em sua simplicidade. A imperdoável ausência de revistas. Na falta de imagens para distrair meus curiosos olhos, ocupei-me em observar a rua através da grande porta de vidro. Um número incalculável de carros transitava no curto espaço que me era visível. Automóveis que passavam depressa, que corriam contra algo que eu não podia ver nem tocar. Cada uma daquelas máquinas poluidoras parecia exibir uma faixa na qual se lia 'SUA VIDA AQUI'. Mas eu não podia alcançá-las, era impossível. Eram muitas, e cada qual com seu segredo, sua aventura. Cada qual contendo um pedaço essencial de qualquer coisa, aquela qualquer coisa que ninguém sabe o que é, mas de que todos necessitam. E eu, na minha ignorância e incapacidade de acompanhar o ritmo exaustante do tráfego da vida, só conseguia obter um ínfimo pedacinho do pedaço essencial de qualquer coisa. Eu não podia ter tudo. Eram muitas, e passavam com tanta velocidade, tanta velocidade...

'Escolha.' Então eu deveria escolher apenas um pedaço. E engoli-lo imediatamente, como se ele pudesse escapar. Mas ao optar por um único pedaço, estaria deixando de lado um milhão de outros pedaços, que poderiam ser tão ou mais saborosos do que o pedaço que por ora escolhi.

Quando o movimento caía e poucos carros subiam a rua, eu era tomada por um alívio sem igual. Podia saborear a visão de cada um em particular, com a máxima intensidade da arte de observar. Mas eles retornavam - a quantidade - e enchiam meus olhos outra vez, encobrindo-os - a qualidade. A sensação era de extrema debilidade. E o dentista me chamava para restaurar um dente no fundo da minha boca fria.


Inércia

Foi durante o dia, logo após o almoço, que ela tomou o elevador e desceu. Olhou de esguelha para o céu, pensando sozinha nos seus problemas e suas tarefas. Dali cinco minutos estaria no trabalho. Ah, que preguiça... Mas, antes mesmo de deixar o condomínio, deparou-se com uma cena que a fez despencar em seu profundo poço de reflexão. Era impressionante. Talvez tivesse uma espécie de vício, mas... O cotidiano lhe despertava um sentimento louco, irrefreável, que conduzia seus pensamentos até a mais infinita divagação.

Da Janela

Todos os dias, ao amanhecer, seu sono é interrompido pelo som indecente do despertador, agressivo, insistente, dispersando as imagens de seus sonhos - sonhos de que ela nem se lembra ao acordar. Coça os olhos brandamente, boceja, senta-se na cama e faz uma tentativa - sempre em vão - de contemplar o céu através da janela de seu quarto. Não consegue enxergar mais do que dois centímetros. Uma coleção de prédios altos impedem sua visão. A rede de proteção a obriga a ver tudo em seus moldes quadrados, retos, regulares. Mas que coincidência... Ter que ver somente o que lhe é permitido, da maneira que lhe é apresentado.

Não. Ela quer ver mais. Ela quer ver para onde as nuvens estão indo, de onde o sol está nascendo, para que lado os pássaros estão voando. Inquieta, enroscada entre seus lençóis e indagações, quer se livrar das grades e dos muros de concreto que escondem a beleza da vida, que lhe roubam a doce paisagem da verdade. Ela quer ver além, muito além. Além da janela, da rede, dos prédios, das nuvens, do sol, do céu, do coração...

O que ela quer ver, não existe.

Mas ela continua procurando. Incansavelmente.


Peripécias da Maioridade

Toda vez que há um aniversário, gosto de perguntar o que as pessoas sentem. E antes que me perguntem sobre mim, já digo logo!

Estou prestes a completar meus primeiros dezoito anos de vida, e devo dizer que me sinto, no mínimo, acanhada. Não que o número 18 tenha alguma importância específica; não indica sorte ou azar, nem pretendo apostá-lo na loteria. A verdade é que se trata de um símbolo, o marco entre duas fases distintas. É claro que não vou
acordar na manhã do dia vinte e nove vivendo uma realidade completamente oposta à que vivia até então. Sei muito bem que nada muda da noite para o dia. Esta data representa um processo de amadurecimento que começa não sei quando e acaba não sei onde.

A Cidade e seus Ruídos

Buzinas, apitos, escapamentos estourados, obras em andamento, gritos,
Eventualmente o canto dos pássaros
É só o que posso ouvir da janela de meu quarto
É tudo que posso ouvir da janela de meu quarto
A cidade e seus ruídos, a magnífica canção da modernidade!


O Desconhecido

Pisamos com nossos pés quentes o chão gélido do asfalto. Enormes poças d'água refletiam nossa imagem ao passarmos. Eu já havia notado, ao acordar, que o céu desta vez se abria cinzento, mas a sensação que trazia não era de melancolia. Era mais como um convite, como quem dissesse 'venha e exale o calor do teu corpo para afastar as lástimas deste mundo frio'.

Leve Encanto

Peguei o metrô pela segunda vez nesta semana. Ah, é, eu ainda me sinto um pouco alheia à toda essa agitação de São Paulo, porque é inegável que tenho vivido nos limites fronteiriços do meu bairro. É provável que no próximo ano - caso ingresse numa universidade - eu comece a fazer parte das grandes multidões hipnotizadas pela pressa que vão e voltam durante todo o dia. Enquanto isso, permito-me a sensação de surpresa e, de certo modo, encanto, quando abandono o conforto do Tatuapé para visitar lugares mais distantes.

Sete de Setembro de 2008

(NOTA: este texto foi publicado no livro Universo Paulistano II, da Editora Andross.)

Era uma manhã em que o céu se encontrava indeciso; o sol se escondia atrás de nuvens ralas, que formavam desenhos, obras de arte estendidas na imensidão azul. As árvores quase não se moviam, não ventava tampouco chovia, mas o ar pairava levemente gélido sobre a cidade.


23 de março de 2010

Uma Pausa

O tempo estava correndo em disparada
mas de repente o tempo parou
O tempo já não se move mais
O tempo estacionou para eu poder respirar
uma pausa, uma pausa
Um suspiro de alívio
Oh, o tempo parou!

É tão incomum que tenha reduzido sua velocidade,
tempo!
É tão incomum que tenha me dado uma chance,
tempo!

Reciclo a oportunidade perdida
O relógio enguiçou, olha só, é hora de me mexer
Aproveito, aproveito:
o tempo parou para eu poder respirar!


Quando o Anjo Subiu

E quando o anjo subiu, tiveram que cortar a árvore, tirar os móveis, limpar as paredes. Jogaram fora a vitrola velha e os discos de vinil eu nem sei que fim tomaram. Quando o anjo subiu tanta lágrima escorreu, tanta foto desbotou, tantos sorrisos eu esqueci; o mercadinho lá em cima também não lembro qual o nome nem qual era o preço dos pãezinhos na época.

Mas me recordo das vezes que jogamos baralho e eu perdi, me recordo dos cafés da manhã e das noites que passamos em frente a televisão, silenciosamente concentrados. E junto com o anjo subiu parte considerável do meu passado, subiu minha infância.
Não sei como que é que anda o quintal - se ainda existir, tenho certeza de que o anjo ainda o observa, lá das nuvens. Tinha uma árvore no telhado também, é! Acabei de me lembrar! Com certeza se desfizeram dela - é uma pena, pobre plantinha.

Lembro que a TV não tinha controle remoto e que às vezes entravam insetos asquerosos por debaixo da porta dos fundos, eu tinha pavor, corria logo a procurar meu anjo, que vinha descalço com o chinelo ou sal nas mãos para me defender.

Quando o anjo subiu, guardei algumas de suas roupas nas minhas gavetas e uso até hoje para dormir e lembrar do conforto dos seus olhos marrons e aguados.

Quando o anjo subiu, tive que ir à igreja - ainda não entendo muito bem tudo isso, só sei que chorei copiosamente e abracei minha mãe, queria tanto o meu anjo, tanto, e nunca mais iria vê-lo, tocá-lo, e sentindo o peso e a angústia desse fato, consumado, irreversível, vi homens grandes sucumbindo às lágrimas e todos nós partilhávamos do mesmo sofrimento.

Eu vejo fotografias esporadicamente, é verdade - mas tento não me apegar às lembranças materiais por um exercício de bem-estar.

Minha mãe disse que um dia viraria uma saudade gostosa e hoje de fato é assim que funciona, como todos os momentos, pessoas e sentimentos bons que tive e não tenho mais. Tento viver o presente e estar no presente, é fundamental.

Quando o anjo subiu, descobri que sou forte, sim, como eu sou forte!, eu ando, como e falo mesmo tendo perdido uma parte de mim, uma parte que vai estar sempre lá em cima, no céu, em outro plano, coisa assim, não sei onde exatamente, mas não importa: um fragmento se soltou de mim e flutua por aí, e mesmo assim eu vivo! Eu respiro! Porque sei que o tive. E isso me basta.

Eu sei que um dia ele se irritou com a minha teimosia e apontou a mangueira de água na minha direção, eu estava de vestido e fiquei encharcada, abri um berreiro, mas tudo bem, eu mereci, e eu era louca para ir na lojinha de um real, era uma espécie de oásis para mim, adorava juntar moedinhas e comprar canetas ou objetos inúteis, ele não gostava muito de me levar lá por causa da localização, é, era um lugar não muito seguro.

Eu acho que eu lembro do seu cheiro. Do cheiro da sua pele. Eu lembro de uma pinta no seu rosto. E seu cabelo curto. Lembro da aspereza do seu cabelo. Eu lembro que seus lábios eram úmidos. E suas mãos muito lisas, bem diferentes das minhas. Muito ressequidas também. Eu lembro da sua altura. Hoje eu talvez tivesse que inclinar a cabeça para baixo para olhá-lo. Não consigo me recordar como era a sua risada. Sua voz me soa muito vaga hoje em dia.

Quando o anjo subiu, aprendi o que é nostalgia.
Quando o anjo subiu, senti a fragilidade da vida.
Quando o anjo subiu, eu escrevi no meu diário.
E toda vez que leio aquela página me dá um aperto doentio no coração. Eu tinha doze anos.

Quando o anjo subiu, eu não me despedi fisicamente. Eu não sei com precisão qual é a sensação que tenho quando vou ao cemitério.
Tem flores lá.
O anjo cultuava as flores.
E tem muitas flores, em todas as direções.
Flores e um espacinho de terra para onde nós olhamos como se fosse algo vivo. Algo que pode nos ver. Que pode nos ouvir. Desculpe, eu não acredito. Caramba, eu não acredito, mesmo que eu queira. Vem do coração e se perde em alguma dimensão abstrata, fora da minha compreensão. Eu não o ouço.
Eu queria ouvir, às vezes.
Às vezes, não.
O passado, o concluído, me dá um pouco de medo, entende?

E quando o anjo subiu, eu cheguei a querer ir junto. Pela primeira e única vez na vida, senti por alguns segundos que ficar aqui não valeria nada. Eu quis ir. Admito, eu quis ir.

Mas hoje eu só quero ficar. Quero ficar para poder fechar os olhos, fechar os olhos e imaginar meu anjo de asas brancas voando acima das nuvens.
Eu sinto a sua falta.




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Carta - Por Eduardo Trindade


" Hoje faz anos que te foste. Aniversarias. Comemoro? Certas datas não se comemoram, por mais marcantes que sejam, ou surpreendentes, ou inebriantes. Não me acostumei ainda ao silêncio da tua cadeira de balanço. Lembras como balançavas, e rangias, e fazias tremer o assoalho? É difícil se acostumar a certas ausências. Pensava que durarias para sempre, mas ensinaste que nada é para sempre. Ensinaste da maneira mais dolorosa.

Lembras-te das nossas brincadeiras? Eras criança em teu corpo de vovó. Eras a criança mais travessa dentre todos nós. Mas os adultos confiavam em ti, confiavam-nos a ti. Mal sabiam que rolavas conosco pelo chão, empanturrava-nos de doces e inundavas a casa em guerras d’água. Quando voltavam, tu inventavas histórias para tranquilizar os adultos! Éramos todos anjinhos.

És hoje o meu anjinho. Não sei, para falar a verdade, quando é o aniversário da tua partida. Sem tua presença, os dias se confundem. E eu, sem ter uma criança-adulta com quem brincar, acabei crescendo. Virei um adulto procurando em mim a criança que foste. Brinco em tua homenagem, faço traquinagens à semelhança de ti. Lembranças? Esforço-me para não esquecer, e de repente te ouço no rangido do assoalho quando atravesso a noite. Buscando me encontrar, reencontro-te."

Poema (Quase) Ininterrupto - Como as Águas de Outubro

águas de outubro, desaguando em ruas inclinadas, enchendo bueiros e rios, atacando guarda-chuvas, atingindo os telhados, como pedras, escorrendo pelos vidros, como lágrimas, as águas de outubro e os pneus deslizantes, luzes que se apagam, janelas que se fecham, e a chuva vem, a chuva vai, o dia nasce, o dia morre, a vida passa, sirenes e buzinas anunciando o caos, canção de ninar ao anoitecer, suspiros de incômodo ao pisar na calçada, águas de outubro girando os moinhos do tempo, o ponteiro se movendo, eu escrevendo e a hora passando, o mundo rodando, o mundo acabando, a chuva caindo e eu envelhecendo, os carros correndo, as flores murchando, águas de outubro rolando e eu respirando, o tempo voando e eu imóvel aqui, ali, acolá, inquieta em mim, o corpo inerte e os sentidos eufóricos, explosivos, e as águas de outubro regurgitadas pelo mar, que eu não vejo, eu imagino, a imaginação levada pelos minutos, agora se esvaiu, sumiu, onde está? águas de outubro que varrem a paz, que em suas ondas trazem incertezas, insinuam a impotência, minha incapacidade de conter as águas de outubro, avassaladoras

- porém no reflexo das águas, no reflexo das águas de outubro eu me vejo, eu me reconheço, eu entendo, eu sinto,
cada primavera,
cada outubro melhor do que o anterior


Poema Ininterrupto - Como o Tempo

'But after a while
you realize time flies
and the best thing that you can do
is take whatever comes to you
'cuz time flies'

(Porcupine Tree)


e continuamente, gradativamente, a vida segue seu curso, ininterruptamente, os ponteiros do relógio eventualmente se obstem, mas o tempo ainda vem, persistente, violentamente, a felicidade em pausas, vacilante, esporádica, trepidante, por vezes sádica, impontual, atemporal, a dor quase sempre imperial, o sonho quase sempre artificial, as horas velozes, atrozes, quase nunca escutam nossas vozes, racionais, inflexíveis, competentes, impassíveis, minutos voam, discretamente, solenemente, não olham pra trás, correm do presente, 'futuramente', 'daqui para frente', e o momento se vai, o suspiro se esvai, se perde no ar, tão fácil se enganar, tão simples se perder, o tempo a te entrever, diariamente, precisamente, entre as frestas da rotina, a verdade é cristalina, 'amanhã talvez não chegue', pacientemente, humildemente, definitivamente o depois te espera, e o agora se acelera, o 'daqui a pouco' está bem aqui, o último dia está logo ali, a morte sem aviso, o fim: fato impreciso, é um improviso letal, real, fatal, única certeza enquanto se está vivo, teoricamente um motivo, um impulso, para se respirar mais, para se sugar mais, do mundo, do amor, no fundo é o que importa, abrir a porta, procurar, encontrar, surpreendentemente ainda há o que comemorar, ainda há o que desejar, pular, cantar, chorar, é melhor te mover, a maquinaria da vida nunca vai se deter, também não vai te impedir, de ir, de partir, de voltar, de mudar, decididamente, indubitavelmente a escolha é tua, o tempo é teu, e teu coração sempre a bater, compassadamente, distraidamente, sem se importar se do lado de fora se morre ou se vive, é indiferente, e aleatoriamente os acontecimentos vêm, os acontencimentos vão, está na tua mão, transformar, arriscar, crescer, renascer, sorrir, insistir, e cair, não há mal, é natural, é assim, fazer o quê? perder o bonde? não ver onde a vida se esconde? procura, atenção!, a doçura está na canção, no poema, no coração ao lado, tanto faz o passado, o tempo corre, a força escorre, vitalidade, energia, um dia acaba, um dia esfria, a paixão, a emoção, efêmeros, um vulcão após a erupção, passageiro, ligeiro, sorrateiro, esse tal de presente, raramente se sente, seu ardor, seu sabor, como deveria ser, completamente, integralmente, p r i m o r o s a m e n t e




Poema Ininterrupto - Como o Amor

muitos vocativos em nossa paixão sem imperativos, corações hiperativos, a todo vapor, eu me rendo, não me arrependo, com os olhos vendados para todo o resto fui induzida por um único gesto, fiz trocas inusitadas com a vida e juro que estou decidida sobre o que quero, sobre o que espero, não há mistério, mesmo sobre o chão volúvel dos sentimentos, mesmo com a tormenta de intrínsecos pensamentos, eu sei que é você, não preciso saber o porquê dos seus verbos de ação, de ligação, dos seus sorrisos e da emoção, somos duas orações atadas por subordinação, nossas mãos unidas, porque anseiam, porque se almejam, nossa energia compartilhada é a saída, o remédio pra qualquer ferida tenha sido aberta em nós ou que essa existência desumana tenha nos causado, mas agora com você a disforia é passado, e ao seu lado a lágrima é quase um pecado, daqui pra frente só a beleza nos espera, daqui pra frente enfrentaremos juntos a fera, a esfera da vida, o furioso universo que desalinha os planetas, que desencaminha os cometas, desgoverna estrelas cadentes, olhares decadentes ao nosso redor, intenções indecentes, ameaças aparentes, mas poderia ser pior, então sinta, sinta nosso poder, vamos pra onde quisermos ir, lado a lado só encontraremos motivos para sorrir, meu amor, se agarre em mim, porque juntos a sintonia nunca chega ao fim


Poema Ininterrupto - Como a Metamorfose

mudaram as estações e definitivamente tudo mudou, o jogo virou, passaram-se os meses e nada é igual, trocou-se o canal, as lentes, na mente ideias fluorescentes, pensamentos ambivalentes, o coração batendo em outra direção, dissolve-se em abstração, a alma em plena transformação, olhos límpidos para uma percepção inédita, a retina trépida, a metamorfose ininterrupta, mansa ou abrupta, uma mudança a cada segundo, e ainda assim é o mesmo mundo, o mesmo corpo, são as mesmas cores, os mesmos tremores, muda-se o estado, conserva-se a essência, líquido, gasoso ou sólido em uma só frequência, os objetivos variam, as paixões se renovam, os temas se ampliam, e o calor do sangue não se altera, não se opera, sonhos crescem e desfalecem, crianças envelhecem e a infância deveria se prolongar - e sucede? - há quem tente, há que busque, estou tentando!, estou buscando!, e eu me desfiguro, me inauguro, eu desperto, adormeço, me converto, me reverto, troco tudo e mudo nada, me reviro, me atiro, por diferentes estradas busco o mesmo propósito, um desejo apósito, por inúmeras e assimétricas estratégias miro o mesmo alvo, e eu ressalvo - por tudo que almejo eu me reformo, me deformo, me transformo, sempre