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Mensagens

A mostrar mensagens de 2010

Eu sonho pela metade

Eu sonho
Pela metade


Pesadelos são concluídos
Antes do meu
Despertar
Interrompido


O relógio não cala
Mas meus anseios são
Abafados


Tudo tão
Descontínuo
Tudo tão
Inacabado


Vida tão
Inacessível
Para que tanto
Labirinto?


Chegar onde?
Se não há
Linha de
Chegada


Se vai
Tudo aos trancos
Tudo aos picados
Com planos truncados


Se a vida é
Só para petiscar
Só para experimentar


Se o que interessa
Fica em aberto
E não dá tempo de
Alcançar


Minha história, um balde de tinta derramado

Minha história,
Um balde de tinta derramado,
Deixa eu contar minha história,
Manchar o mundo

Minha infância,
Livros para colorir,
Giz de cera no lugar dos dedos,
Ou canetinhas esferográficas para desenhar
O impossível

Meus sonhos,
De acrílico, tingidos no céu,
Uns vingaram feito arco-íris,
Outros, pingaram no mar

Meus pecados, poucos,
Incolores,
Sutis,
Feitos à lápis de grafite sem qualidade

Minhas palavras,
Ambíguas,
Muitas cores
(Busquei precisão
Mas continuo rabiscando nas entrelinhas,
Borrando as certezas)

Meus amores,
Uns febris, vermelhos
Outros pálidos,
Desbotaram,
Sumiram nas margens do papel

Minha arte,
O último quadro da exposição,
Pendurado na sala menos visitada do museu,
Às vezes até trancada,
Esquecida

Meu tempo,
Todas as nuances em uma paleta,
Pincéis que perdem as cerdas,
Texturas que se aplainam,
Em um minuto, a cor se esvai

E enquanto traço a vida,
A minha morte,
Uma tela no cavalete,
Intocada,
Espera a minha assinatura


Muros multicoloridos

Os muros multicoloridos passam pelos olhos multifacetados dos homens
Nos ônibus, peitos incham em sonhos mutilados
Um homem morde um lanche murcho
Outro homem discute ao celular
Discute os protocolos e pergunta o caminho do cartório ao cobrador
A moça discute, dentro do seu corpo de moça,
Com seu espírito já meio embolorado
Outra moça fita, ambiciosa, as pernas dos passageiros
- Quem dera pudesse pousar o traseiro no banco
Repousar a cabeça na janela
E alçar vôo no sono atrasado

Os muros multicoloridos correm pelos olhos multifacetados dos homens
Mensagens anônimas se propagam com erros ortográficos
Pelos quais o ônibus passa sem se ater à semântica
Pneus tropeçam nas lombadas
Pés tropeçam e pisam calos e unhas encravadas
A catraca gira, corpos atravessam o corredor, aos montes
Não atravessam a si mesmos
Porque não há bilhete único para dentro de si
- Quem dera pudessem se transportar
Para onde os sonhos ainda fulguram
Longe das moléstias urbanas

Os muros multicoloridos somem dos olho…

Para quem saiu e fechou a porta,

Se você saiu e fechou a porta, não sou eu que vou me levantar para abri-la quando você decidir voltar. Entenda que estou muito bem arranjada no meu colchão, tenho a minha cabeça agasalhada no travesseiro macio, a tênue linha de luzes da cidade que entra pela janela dá gosto de ver. O sono é confortável e a cortina de seda dança ao meu lado para me ninar, impulsionada pela frágil brisa que me visita com frequência nessas noites de primavera. Tudo está em seu devido lugar: fiz uma faxina recentemente, minhas camisas estão passadas e dobradas na gaveta como se tivessem sido atropeladas por um rolo compressor, os casacos organizados lado a lado em seus respectivos cabides, meus sapatos e sandálias proporcionalmente empilhados no cesto de vime. Ah, e as roupas antigas foram doadas. Nas estantes, os livros enfileirados por ordem alfabética e os CDs, por ordem de preferência. O rádio portátil fica em cima do criado-mudo tocando músicas suaves no volume ideal. Há no chão um copo de água sem g…

Sem pausa para o lanche

( A pequena prosa a seguir intertextualiza com a escrita por Guilherme Palley, aqui)

Fiquei sabendo como é andar nas entrelinhas e cair no meio do parágrafo, mas procurei aguçar a visão e enxugar os dedos para que o próximo passo pudesse ser dado. Eu devia subir de volta, me agarrei à virgula: nada de ponto final. Não queria me perder, apenas continuar com os meus versos, sem me exceder, podendo, assim, permanecer nas entrelinhas. É preciso ter cuidado, é preciso ter manejo, uma palavra e eu me denunciaria: uma palavra e a tragédia estaria consumada. É certo que sinto o arrebatamento, sinto os murros, eu estou sempre nesse estado de oscilação, para a esquerda, para a direita, me equilibrando na linha reta, mas você sabe: não tenho régua e às vezes o verso fica torto pra valer.

Subsisto nas entrelinhas mesmo, muitas palavras são indizíveis, o próprio conceito de belo é indizível. Então, por instantes, desisto de despejar as palavras e deixo que jorre o silêncio, aquele silêncio que é p…

Manoel de Barros - Entrevista #1

CONVERSAS POR ESCRITO
(Entrevistas: 1970 - 1989)

1. SOBREVIVER PELA PALAVRA

a José Otávio Guizzo
Revista Grifo, Campo Grande, MS.

P. Como é que começou a fazer poesia; que elementos influenciaram a sua formação poética?

R. Acho que foi a minha inaptidão para o diálogo que gerou o poeta. Sujeito complicado, se vou falar, uma coisa me bloqueia, me inibe, e eu corto a conversa no meio, como quem é pego defecando e o faz pela metade. Do que eu poderia dizer, resta sempre um déficit de oitenta por cento. E os vinte por cento que consigo falar, não correspondem senão ao que eu não gostaria de ter dito - o que me deixa um saldo mortal de angústia. Mesmo desde guri, no colégio, descobri essa barreira em mim, que não posso vencer. Sou um bom escutador e um vedor melhor. Mas só trancado e sozinho é que consigo me expressar. Assim mesmo sem linearidade, por trancos, por sugestões, ambíguo - como requer a poesia.
Sobre elementos que influenciaram a minha formação, agora essa inaptidão para o diá…

Um ensaio quase lírico

Mais um gole de vinho? Segure firme o seu copo. Pronto, agora sim. Me acompanhe até a sacada, fazendo favor, quero lhe dar uma palavrinha. Como você pode ver, a chuva vem desmaiando por cima dos telhados frágeis da cidade. Em seguida, escorre desesperada pelas paredes pichadas e cobertas de fendas; é abrigada pelo asfalto, onde se põe horizontal e oscilante a deslizar até o meio-fio. O seu inevitável destino são os bueiros, onde se esconde, tremediça e ruidosa, e sobrevive por mais uns dias até evaporar, se esgotar e inexistir. Por que estou lhe contando isso? Ora, você não percebe? Assim vivemos todos nós, meu caro, a nos meter nos esgotos do corpo, ali onde tudo é torpe e imoral. Sim, evidentemente, há vezes em que o bueiro entope e regurgita a chuva embalada pelo lixo e a escória urbana - com o perdão da analogia. Sei que daqui de cima a visão é fascinante, as nuvens bamboleando pelo céu e as milhões de luzes vomitadas pelas janelas de casas e apartamentos onde famílias se amam e s…

Tem um cílio na sua bochecha

A Lua hoje sorria incrustada no absoluto breu do céu. Lua crescente, sorriso sem olhos que se erguia acima de um prédio cujas janelinhas brilhavam quase todas. Se o céu estava desligado, as luzes da cidade não o deixavam descansar, assim como a Lua, imaculadamente jovial, com seu sorriso incansável que pendia a esmo. Sei que ela sorria para mim enquanto eu subia as escadas a mirá-la. Retribui, porque é assim que se faz. Nos aglomerados urbanos, os outros afastam os olhares, escondem as pupilas no chão, forçam nos lábios o desenho de uma indiferença afetada. Não se quer olhar, não costumam sorrir. Trocam insultos no trânsito, trocam empurrões nas calçadas, trocam dinheiro e mercadoria nos supermercados e os sorrisos? Esses ficam guardados no avesso do corpo esperando um nobre motivo para serem ensaiados nos lábios. A Lua não, entende? A Lua já estava ali sorrindo com graça no escuro me esperando chegar em casa. Subi as escadas, atravessei o pátio, tomei o elevador. Em meu quarto, abri …

Todo mundo já pousou na janela.

Apoiou a palma das mãos no parapeito, arremessou as pupilas pequeninas ao largo céu onde elas se perderam com encanto ou aflição. Todo mundo já recostou a cabeça no vidro do ônibus, do metrô, do carro e fechou com cuidado as pálpebras só para sentir os cílios oscilando nas maçãs do rosto. Todo mundo já correu para flagrar o beija-flor que fazia espetáculo do lado de fora e lamentou ao ver o passarinho, sem mais nem menos, voar para longe e desaparecer em questão de segundos. Todo mundo já espiou devagar as redondas gotinhas de chuva que gracejam na superfície do vidro ou os raios de sol que desfilam sem pudor pela sala em um dia distinto de verão. Mas, quando se trata da vida, prefiro abandonar a janela, mesmo que custe muita audácia, e sair pela porta renunciando ao papel de espectadora. Todo mundo precisa ser visto do lado de fora por um outro alguém pousado na janela. E fazer tudo o quanto é possível enquanto se está fora de casa com o mundo ao alcance das mãos.



# Ilustração da Luys…

Quem dera ser como as pipas que eu via sacolejar no céu mesmo quando tínhamos mau tempo e chovia.

Nos fins das tardes cinzentas e perigosas eu costumava ficar feito estátua diante da janela da casa da vó. Cobria-me de paz e silêncio e contemplava os trovões - insuficientes para intimidar uma ou outra pipa que sapateava entre as gotas precipitadas. Era de admirar que aqueles losangos coloridos feitos de papel sobrevivessem mais do que cinco minutos debaixo dos grandes temporais a que eu assistia com interesse; mas lá estavam elas, sacolejando daquela maneira peculiar e característica das pipas. Admito que não entendo muito de pipas, de modo geral são feitas para a diversão dos garotos e ninguém nunca me ensinou a empiná-las. Mas de uma coisa eu sempre soube: elas voam alto, bem alto, sem medo... Perto das nuvens carregadas, perto do sol reluzente, talvez até perto do limite do mundo!





# ilustração da Luyse

Alguns tópicos da Poética de Aristóteles

1.
Epopeia, tragédia e ditirambo são imitações com o ritmo, a linguagem e a harmonia, usando este elementos separada ou conjuntamente.

2.
A epopeia é a arte que recorre ao simples verbo.

3.
Poesias há que usam de todos os meios sobreditos, isto é, ritmo, canto e metro, como a poesia dos ditirambos e dos nomos.

Uma dose de silêncio antes de sumir

Tomaram uma dose de silêncio antes de iniciarem a conversa. Ele abriu a garrafa de vidro, serviu os dois. Brindaram sem se olharem, beberam sem que o ato de engolir produzisse um ruído sequer. O silêncio dele era, de algum modo, letal. Ela sabia que morreria em poucos minutos. E precisava dizer. Mas a bebida fazia sua garganta queimar, não conseguia soltar a palavra. Ele não lhe dirigia o olhar nem se aproximava, temendo parecer que estivesse fazendo pressão. Ela observava o nada, sem saber que ele também. Pegou a garrafa, encheu o copo, bebeu devagar. Agora é que ela não falaria mesmo. Ele a olhou com certo desespero. Quis pedir que ela dissesse logo, antes que fosse tarde. Mas ela tomou até o último gole. Quis abraçá-lo para se despedir, mas ele a recusou. Queria apenas as suas palavras. Na verdade, chegou até a empurrá-la de leve, com um pouco de grosseria. Arrependeu-se de ter trazido o silêncio. Agora ela desaparecia aos poucos antes de ter falado. Os olhos dos dois jamais se int…

O subterfúgio

Tentei explicar à minha mãe, sem apelar à subjetividade, porque é que virou moda meter fones nos ouvidos durante viagens de ônibus e metrôs. Se você quer pedir informação, acaba acidentalmente escolhendo (a dedo) o rapazinho na janela, de olhos perdidos na calçada do lado de fora, ouvindo músicas que você talvez nunca descubra quais são (você pensa, talvez seja melhor continuar não sabendo), e que, sentindo-se tremendamente incomodado com a interrupção, lhe responderá de má vontade.
Procurei dizer à minha mãe que o cotidiano é feito de mesmice, que as paisagens se repetem, que as pessoas têm um certo mal-estar social, essas coisas, e que ouvir música rompe, mesmo que por instantes, com a insatisfação de viver sempre do mesmo modo, chacoalhando bruscamente no ônibus, cambaleando no metrô e trombando nos outros pelas passarelas.
Mas, se antes de dizer isso à ela, eu tivesse podido responder por escrito, eu teria dito mais.
Veja bem, teria dito que a melodia paralela ao movimento esboça …

17 de Agosto - Lançamento do Menino sem Nome na Bienal

Um coração comporta extremos

E o pulso ainda pulsa
(Arnaldo Antunes) Comporta o tédio e a ação, o tumulto e a solidão.
Um coração carrega o silêncio e a explosão, a ignorância e a informação.
Um coração atura o tapa e a adulação, a indolência e a emoção.
Um coração aceita o inaceitável.
Aceita a ira e a paixão, o erro e a reparação.
Permite o brilho e a escuridão, a incerteza e a exatidão.
Um coração é elástico: imprecisão.
É volátil, nascido da perturbação.
Um coração incha e se contrai, sem restrição.
Um coração se sustenta na transformação.
Coração: sem interrupção. ®
(inspiração vinda de dentro de um copinho de café, na manhã de hoje, resultou numa série de rimas pobres porque o coração comporta a miséria)

Do inverno à primavera

Vi folhas dançando no chão nos últimos dias de inverno, folhas que sapateavam no coração em uma manhã fria de sol. Pedi que a dança nunca chegasse ao fim, prometi não desistir dos meus olhos que vêem tudo o que tenta se esconder entre as árvores e a rotina, prometi não desistir das mãos que nada querem deixar escapar, prometi não esboçar o último verso do poema para que o poema seja interminável, descobri a arte de pôr arte em tudo e não vou partir, não vou partir, a beleza me prende e a primavera me espera: eu me rendo às flores.



(aquela inspiração que vem quando se está ouvindo música, esperando o ônibus e vendo as folhas literalmente dançarem na calçada)


Viagem

No mapa do corpo
Os limites da alma
Estradas, na palma,
Da mão, que apalpa
Estradas, que o pé percorre
E nos olhos corre
O mundo inteiro
Imerso no mapa do corpo
O corpo que viaja
Além do Atlântico
E dentro de si mesmo
A esmo

(segundo poema feito em sala de aula, e não é que essa história de espontaneidade artística dá um baita bem-estar?)


Um belo enterro

Esperou cessar o ronco da moto que corria rasgando a madrugada. Atravessou a rua. Tudo estava deserto. Olhava para os lados a cada trinta segundos. No céu, um vazio estonteante. Ao longe o ruído do metrô em sua última viagem da noite. Sentia a respiração densa, os olhos úmidos. As mãos estavam secas e ásperas. Fazia frio. Abriu o portão enferrujado do parque e entrou. Uma coruja deu seus cumprimentos. Um vulto roçou sua canela e desapareceu na escuridão. Devia ser cachorro abandonado. Depois de ter dado uns setenta e dois passos seguindo pelo caminho da direita, ouviu o som abafado do portão sendo fechado. Não olhou para trás. Parou e observou a silhueta de um balanço quebrado. Suspirou. Algo se moveu na copa de uma árvore e alçou voo. Seus olhos esbarraram na Lua que só então se pronunciara. Tornou a caminhar, sem pressa. Deslizava no breu. Tropeçou em uma raiz, mas não caiu. Riu de si. Enfiou as mãos nos bolsos, revirou. Ajoelhou-se diante de um canteiro de flores que não tinham cor…

Escrevam - disse ele

Uma poesia
A menção à poesia
O pensamento na poesia
Roça a alma, acaricia
Assalta do peito a disforia
Abre o apetite e então sacia
A ânsia de sentir colorir o dia
O dia
Que depois da poesia
Se torna a própria poesia


(Acabei de sair da minha primeira aula de Estudos Comparados da Literatura em Língua Portuguesa - nome muito longo para uma única disciplina, por sinal. E foi também a primeira vez que produzi em aula desde o início do curso.)


Divulgações

Meu primeiro livro, Menino sem Nome, está sendo divulgado no portal Guia do Bebê, da UOL, onde O Canto das Artes (o ateliê em que trabalho) anuncia. Para conferir, clique aqui.





Para ver o livro no site da Bienal, clique aqui e digite Menino sem Nome em Título.











" O menino sem nome estava concentrado, meditava. Eu o lia de perfil. Via seus cílios descendo e subindo ao piscar. Via sua boca abrir e fechar ao respirar. Via seu nariz inspirar o ar como se inspirasse vida. A vida que entrava e saía de seus pulmões, que enchia todo o seu corpo, a vida que circundava sua pele, a vida que se enraizava em seus ossos e músculos e a vida que batia junto ao seu coração, que pulsava, que palpitava... Quis assaltá-lo, quis transferir para mim o sopro de energia que seus lábios expiravam, quis roubar a sua força e a sua pureza e a sua vitalidade... Quis sê-lo. Segurei e apertei seu pulso. Ele se voltou para mim. Quatro pupilas se espreitaram. Eu podia ver o meu reflexo nos seus olhos e ali minha…

Termo e meio

A tarde transita
entre o sol da manhã
e os becos da noite

Ecos embaralhados
de um grito quente
e um sussurro frio:

Da penumbra da alma
da claridade dos olhos
e do breu do coração


Capa - Menino sem Nome

" Deitei em minha cama, sentindo a maciez do colchão, amarrotando os lençóis, esticando meus braços para o alto como se tentasse tocar o teto. Cerrei os olhos sem apertá-los, respirei demoradamente, toquei a campainha da minha alma. Ela me fez esperar algum tempo. Existir, de repente, me pareceu uma mentira. Eu não estava ali. Era tudo imaginação. Não sentia meu corpo, não podia mais mover meus braços, nem abrir os olhos. Era uma miragem. Eu me enxergava de cima, podia ver meu corpo estirado na cama, e meu espectro sentia pena daquela carne que pensava ser verdadeira. A sensação durou pouco. Eu quis tornar a senti-la, quis sair do meu corpo outra vez, ver-me de outro ângulo, mas era impossível retornar ao estado anterior. Por uma vez até duvidei que tivesse acontecido. Sentei-me, fitando o guarda-roupa fechado. Fechado. Minha alma havia se fechado outra vez.
Mas, afinal, o que aconteceria se eu a tivesse excedido? "
(Menino sem Nome - Aline Veingartner) ®

Está chegando!

Poema feito com pressa

Sem tempo, sem tempo, rabisco
Sem fome, sem fome, petisco
Se tenho coragem arrisco
E o verso atrasado:
Um risco


Um sonho

Quem já realizou um grande sonho sabe o quanto ficamos eufóricos quando aquilo que desejamos desde pequeninos está prestes a acontecer! Tenho pensado muito no que me aconteceu nos últimos meses e me sinto particularmente afortunada. Vou conseguir lançar o meu próprio livro antes de completar 20 anos! É mais do que meu coraçãozinho pode aguentar :)


Data: 14 agosto de 2010 - sábado - Itaú Cultural - a partir das 19hs
Coquetel de pré-lançamento da Antologia Delicatta (da qual participo publicando dois poemas), premiação, autógrafos e sarau. O Instituto é um centro de referência cultural, há mais de 20 anos promovendo e divulgando a produção artístico-intelectual brasileira.
Entrada franca.
Endereço: Av. Paulista, 134 - Bela Vista, São Paulo - SP, 01310-000
Como chegar



Data: 15 agosto de 2010 - domingo - 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo - a partir das 18h30hs

Lançamento da Antologia Delicatta no estande da editora Scortecci
Entrada: R$ 10 (inteira), R$ 5 (estudante)
Endereço: …

Análise do Poema: Soneto do Amor Maior - Vinicius de Moraes

* Caso você esteja usando esta análise para o seu trabalho, peço que, por favor, faça a devida referência.

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo

Trechos de Histórias Extraordinárias - Edgar Allan Poe

A queda da casa de Usher
"Eu sentia que respirava uma atmosfera de tristeza. Um ar de severa, profunda e irremissível melancolia pairava sobre tudo, envolvia tudo."

"E assim, à medida que uma intimidade cada vez maior me permitia penetrar, sem certas reservas, no recesso de seu espírito, mais amargamente percebia a inutilidade de qualquer tentativa no sentido de alegrar um espírito cujo negrume, como se fosse uma qualidade positiva e inerente, se esparzia por todos os objetos do mundo físico e moral, numa irradiação incessante de tristeza."
O barril de Amontillado
"- Vamos - disse-lhe com decisão. - Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não importa. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi..."
O gato preto
"Há algo, no amor desinteressado, e cap…

Hjelmslev

"A linguagem - a fala humana - é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade, seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam a nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças e…

Desabafo social mal escrito

(Breve relato do que pensava enquanto esperava meu ônibus todas as manhãs, em um ponto próximo ao metrô República)
Descubra o que há do lado de cá. Chega mais perto e veja a que ponto chegamos. Se é que chegamos. Não é possível que aqui seja o final. Por favor. Me diga que é o meio da estrada, que há ainda muito o que caminhar, que vão ainda lavar a roupa suja, tratar os dentes podres, limpar a calçada pintada de urina e dor. Por favor. Fale que há uma saída. Fale que tudo vai mudar antes de eu fechar os olhos e dormir para sempre e que nesses bancos as pessoas estarão sentadas, despertas, nutridas. E que corpos poderão se cansar, mas nunca os corações. E os ônibus transportarão corações cheios de esperança. E a esperança brilhará com o sol, ou cairá sob forma de chuva. Diga que há esperança! Vem aqui perto, olha aqui, olha o homem caído no chão, e diga que é a última vez. Diga que amanhã haverá uma cama. Diga que amanhã haverá um emprego. Diga que existe dignidade, pelo amor de Deus,…

Dez meses desmedidos

Você bem sabe quanto amor confio eu às palavras, bem sabe como é irresistível o ardor da metáfora que salta aqui do peito para a ponta dos dedos e me faz obstinada e dependente. Penso às vezes que vou reclinar e lhe destinar apenas o plausível, o afago na face, a doçura da compreensão, o auxílio imediato, mas - peço perdão por isso - não sou capaz de me conter e imagino logo a forma de um poema ou mesmo invento uma analogia espontânea e livre quando seu rosto está bem conectado ao meu e os nossos olhos se embriagam um no outro e escorrem juntos no fluir do tempo que parece inexistir porque no sentir não cabem as horas. Você é arte. Você todo é a arte, a poesia, a música, a escultura, o quadro raro na parede quase nua da minha existência que venho pintando devagar para não terminar tão cedo.

Penso toda vez que já não resta mais nada, penso que minhas palavras talvez tenham escapado do paradigma, tenham talvez banalizado pelo excesso do uso - todavia cá estão, frescas, úmidas, as mesmas…

Trechos de O Lustre - Clarice Linspector

" Não! queria ela gritar e dizer que esperasse, que não a deixasse sozinha sobre o rio; mas ele continuava. O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furiosamente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra que fosse. Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino. "


" O coração batia num alvoroço doloroso e úmido como se fosse atravessado por um desejo impossível. E a vida do dia começava perplexa. "


Não estou pela metade para aceitar amores incompletos

Seria bom que fossem embora, que fossem todos embora e se desprendessem da infinitude do presente, despencassem no passado e rodassem, rodassem, rodassem, misturando-se a tudo o que já foi até tornarem-se parte daquilo que não posso mais tocar. Não quero mais ter que sustentar pensamentos do agora e quero que todos estejam radiantes no antes, no antes. Quero que sejam floridas recordações, inatingíveis, lembranças adocicadas que inquietam levemente o coração - só quando peço. É uma despedida, é uma lágrima rolando e abarcando-os como um dilúvio, levando-os para trás de mim: aqui na frente não são bem-vindos.

Vão - eu peço.

Preciso que me digam adeus de uma vez por todas e saiam desse meio estado de meio amor meio sofrido que vem e volta e que me engana e que confunde os meus olhos que já não sabem mais para onde olhar. Preciso do novo. Preciso me desfazer das cartas, das notas, das fotos, não me trazem nada, não me trazem nada senão o aviso da fulgacidade. Eu não os quero, não!, part…

Amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos

Eu teimo, sim, passarei meus dias questionando o por quê das palavras, estou imersa na dúvida, naufraguei aqui e quero saber se vou sair desse estado de tensão, quero saber o motivo de continuar escrevendo mesmo sabendo que muitos o fazem, e que não há nada de novo nisso, e que existem tradições, existem critérios de avaliação e as críticas, e talvez tudo aquilo que produzo não passe de um montinho de desabafos e palavras mal-colocadas, talvez nunca conheçam meu nome e eu prosseguirei anônima, desamparada, trancada com as minhas palavras que não sei onde enfiar senão no papel onde escrevo, onde teimo em escrever porque viver não me basta, porque sentir não me basta, preciso expelir tudo isso como se fosse uma necessidade básica, mas eu me preocupo, me preocupo, sim, em fazê-lo direito, não quero despejar devaneios desconexos por aí, ao menos é o que busco, há uma lógica em tudo que faço, é uma tentativa de satisfazer essas palavras peraltas que não saem do meu pé, que ficam aqui tambo…

Eu sou mais uma que engole vírgulas porque na vida não quero pausas

Nas veias entupidas do metrô eu sou mais uma querendo apenas me manter de pé nos corredores não pretendo ser lançada bruscamente contra as portas e nas filas intermináveis dos bancos e comércios agarrada aos ferros sujos do interior dos ônibus ou desviando das pessoas nas calçadas eu sou mais uma eu sou mais uma mais uma pagando impostos mais uma pagando pecados e contando trocados para tomar mais um café mais uma tentando deixar os olhos bem abertos tentando acordar na manhã fria e escura mais uma buscando se perder nas cores para não ter de olhar a realidade branca e preta das ruas corrompidas mais uma boca pálida resmungando cochichando ou sorrindo eu sou mais uma que vai indo, vai indo...

Não quero buscar os meus olhos na Lua

Ainda se ama a Lua à maneira dos gigolôs
(Carlos Drummond de Andrade)
Já tentei abolir meu vício de arrastar a Lua que acabo de considerar no céu para a superfície das palavras. Não sei mais dizer quantas vezes vim pela rua reduzindo os passos para desatar meus olhos e deixá-los alçar vôo, cada vez mais altos e mais depressa até esbarrarem e se agarrarem nas crateras. As nuvens vão correndo e misteriosamente desviam da potente lâmpada que acende o firmamento; deixam que se forme uma auréola de escuridão – ora, uma auréola de escuridão! É como se houvesse um abismo. Um abismo onde despencam meus olhos quando tentam traduzir a luz que emana da esfera lunar. Gostaria que alguém, algum dia, pudesse me explicar tamanha resplandecência. Não, não quero saber da influência do Sol. Não estou perguntando se a Lua é banhada ou não pelo brilho solar. O Sol não vem para nos aquecer quando cai a noite e a Lua faz o coração ficar tão quentinho, tão quentinho que dispenso os cobertores. Eu poderia pass…

Palavra, chave

Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora

(Carlos Drummond de Andrade)
Poesia é a mão que despe a alma.
Os tijolos da poesia são as palavras.

As palavras me seduzem, me reduzem à submissão.
As palavras me conduzem, me agarram e jamais me largam.
As palavras murmuram ao longe, me invocando quando estou ausente.
Palavras: onipresentes.

Não tenho outra escolha senão recebê-las.
Palavras e ideias rogam uma forma dentro de um poema.
Eu dou a forma.
Rogam rimas. Eu dou as rimas.
Rogam versos. Faço os versos.

Mas as palavras, rebeldes palavras, nunca estão satisfeitas, e eu vejo sua inquietação.
Pulam aflitas de um canto ao outro.
Escorregam dos extremos, despencam, desaparecem.
Mudam de aparência, de configuração.
Outras brotam sem aviso no …

O zíper da alma

A poesia é a mão mágica que abre o zíper da alma.
Eu pude senti-la. Anteontem, ontem, hoje pela manhã.
E sei que vou senti-la no dia seguinte. E no outro. E no outro.

A poesia é a mão que puxa com malícia o zíper da alma.
Despindo-a. Revelando-a. Expondo-a ao mundo.
Porque, enquanto vestida, a alma não se abala com os fatos do mundo.
Nua, ela estremece. Nua, a alma teme o mundo.

Entretanto, passado o sobressalto, a alma vive um instante de encantamento. E contempla o mundo. O que era óbvio aos poucos se vai transformando, apanhando sentidos muito além do que a alma podia captar antes, quando coberta.

A alma só é verdadeiramente alma quando assediada pela poesia.


Salve uma vida!

Já faz tempo que eu pretendia doar sangue e no último sábado finalmente o fiz! Particularmente me sinto muito satisfeita: além de ter recebido um ótimo atendimento, tenho a sensação de ter feito algo extraordinário - apesar de ter somente me deitado em uma cama e estendido meu braço esquerdo. No fim de tudo, ainda ganhei um lanchinho.

Escolhi a Hemoterapia Nove de Julho por recomendação do meu amigo Hélio e decidi divulgá-la, por julgar a doação voluntária de sangue uma atitude fundamental - afinal, é rápida, simples e não dói!
No site http://www.hemoterapia9dejulho.com.br/ há todas as informações necessárias para quem também quer salvar uma vida!


Os homens sem poesia

Nas tardes de movimento, volta e
meia
me afronta o vento, em que a
verdadenão se insinua, parece
estampadano centro da rua ou
nos muros
onde brincam os artistas
da cidade,sua juventude sem possibilidade, sua
pouca
ou quase nada liberdade, sem
energia,sem regalia, toda angústia
impressana extensa alma vazia e
nas vozesdos corações calados
dos homens sem poesia 


Paul Valéry

1.
Entre a voz e o pensamento, entre o pensamento e a voz, entre a presença e a ausência oscila o pêndulo poético.

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2.
Todas as coisas preciosas que se encontram na terra, o ouro, os diamantes, as pedras que serão lapidadas estão disseminadas, semeadas, avarentamente escondidas em uma quantidade de rocha ou de areia, onde o acaso às vezes faz com que sejam descobertas. Essas riquezas nada seriam sem o trabalho humano que as retira da noite maciça em que dormiam, que as monta, modifica, organiza em enfeites. Esses fragmentos de metal engastados em matéria disforme, esses cristais de aparência esquisita devem adquirir todo seu brilho através do trabalho inteligente. É um trabalho dessa natureza que realiza um verdadeiro poeta. Diante do poema, sente-se bem que há pouca chance de que um homem, por mais bem-dotado que seja, possa improvisar para sempre, sem outro trabalho além daquele de escrever ou de ditar um…

Hoje foi um dia parecido com chocolate meio amargo

com a garoa sutil, quase invisível, inescapável mesmo debaixo do frágil guarda-chuva, as poças d'água por todo lado, molhando e indignando os pés dentro de meias arrefecidas, não tão frio, tampouco quente; longe de ser acolhedor, no entanto nada incômodo, de céu embaçado, indefinido, ilimitado; os prédios congelados e colados na paisagem sem graça e inerte, nenhum sinal do sol, alguns sinais de sons, ônibus atropelando crateras d'água, esperança se acomodando nas lacunas em mim.


Em todas as estações

Eu sempre soube que, quando caísse a tempestade, você não tamparia os meus ouvidos para evitar que eu me assustasse com os trovões. Você me levaria até a janela, apontaria para o céu e sugeriria que eu observasse, de olhos arregalados, o relâmpago, aquele lapso de luz avassalador que faz a paisagem estremecer e o coração perder o ar. Você nunca me escondeu dentro do armário para que os meus medos não me encontrassem. Você nunca economizou verdades. Também nunca me poupou sorrisos. E vou dizer: os seus sorrisos me dão a sensação de que, perto ou não, você nunca, nunca deixará de ser a irmã que as mãos da vida, graciosamente, me confiaram como um presente, com direito a cartãozinho e laço de cetim. Um presente de valor indefectível.


Por que escrevo?

Há vezes em que reflito e tento encontrar quais os motivos que me impulsionam a escrever. Entendo que é uma resposta que metade do mundo tentou e ainda tenta buscar. Muitos já se arriscaram a explicar, justificar por que diabos brincam com as palavras, por que cargas d'água são tão facilmente magnetizados pela linguagem escrita. Suponho que as conclusões sejam sempre as mesmas.

Confissão de que a vida não basta

Se, segundo Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta, estarão os adoradores das letras eternamente condenados à insatisfação? Porque eu simplesmente mergulho na emoção de escrever e sei que o faço melhor quando as angústias interiores me instigam a expressar, através das palavras, o que não pode ser exprimido de nenhuma outra forma.

Passagens

Hoje é preciso perder para amanhã poder ganhar - disso eu já sei. Mas eu não termino minha partida com sabor de derrota nos lábios, eu sei que o jogo ainda não terminou e ainda posso trilhar esse tabuleiro com meus próprios pés. Não me abate o fim de uma batalha não vencida e eu aponto meu canhão, se necessário. Eu sou o exército todo, entenda: posso lutar sozinha e todos os dias meu escudo reluz sem hesitar. Não é porque tenho inimigos que vou deixar me intimidar; tenho ainda os papéis, as manchas e as sinapses acontecendo incessantemente, tenho os punhos e tenho ele, o coração - estou segura. Posso dançar valsas alheias e assobiar o que não vem de dentro, mas a essência, a célula primária se mantém intacta. Nos meus olhos reside uma espécie trivial de paradoxo: oscila entre a transparência e a ausência de sensibilidade - pois é, isso pode mesmo acontecer às vezes.

Trivialidade da Indigência

Deitam em papelões e perdem sonhos assaltados
Roncam acima do chão, pelo mundo são farejados
Sentimos a repulsa autônoma atravessar a garganta
Por medo encerramos portas de aço quando a lua se levanta

Lutando contra a chuva

Foi por muito pouco - quase permiti que a chuva me cobrisse com seu tempero de melancolia. Lembro-me das noites - ainda esta semana - em que a lua brilhava muito no céu, e alguém me disse que se eu usasse óculos, veria-a muito menor. Não importa. Eu sei é que agora ela está escondida atrás de nuvens carregadas; enquanto escrevo faz silêncio, as gotas cessaram, mas não me esqueço do ruído que fazem ao tocar o topo dos edifícios, os vidros dos carros, não esqueço o som dos pneus deslizando nas ruas molhadas e a cidade cinza em um dia como hoje é quase uma prisão. Mas entenda: libertar-se é só uma questão de vontade, e eu poderia, se quisesse, inclinar-me para onde meus sentimentos me conduzem, que é geralmente a angústia. Sei que não sou a única. Ter uma vida é carregar uma bagagem cheia de bugigangas (comumente conhecidas como experiências) que nos puxa para trás, que tenta nos fazer cair. É preciso ter muita força, é preciso disposição, esquecer as dores nas costas e nos ombros, de ve…

A paz

O inverno, de fato, não desabou em mim tão gélido quanto eu imaginava - sequer nevou nos meus jardins e minhas flores estão intactas, vívidas e tão coloridas quanto o meu espírito ultimamente. Entendo que o regador está nas minhas mãos e eu podia muito bem tê-lo posto de lado e esperado para ver as minhas plantinhas murcharem, para então plantá-las de novo. Mas por quê? Gosto do modo como elas cresceram e do perfume que exala de suas pétalas, gosto do verde cítrico do caule e as folhinhas que tremem tanto quando venta. Por que eu deveria deixá-las partir? Que bobagem, que bobagem.

O grande mistério

É, andei pensando - o resto é realmente um grande mistério, mas você sabe que já não tenho mais tanta certeza quanto ao inverno, afinal? Frio, frio, que se entende por frio? Pode estar um ventinho fresco lá fora, daqueles que racham o lábio e deixam nosso nariz parecer fucinho de cachorro; a gente tenta se aquecer debaixo do cobertor e toma um leite quente, fecha todas as janelas e esfrega as mãos... Mas isso tudo se trata de algo sólido, físico. Nem sempre o inverno tem a capacidade de penetrar os poros da pele e deixar o coração salpicado de neve. Mesmo nos dias cinzentos - como já comentamos - é possível encontrar uma lasca do azul, é possível trazer conforto pra dentro do peito. E eu digo que essa não é a pior estação, não, de modo algum! A gente usa o pretexto do frio para se aproximar das pessoas, e nessa história acaba roçando em um fulano, um sujeito profundo que cospe umas palavrinhas ferventes e de tão emocionada, de tão comovida, a gente deixa as palavrinhas pularem nas pal…

Razão Distorcida

Quantas estrelas viram estátuas de gelo no céu ao findar de uma canção?
Quantas ondas no mar se desfazem quando se dissipa um coração?
Se o arco-íris foi tingido de sete cores
Se o tesouro está guardado a sete chaves
É porque muitas paixões flutuam de continente em continente
É porque muitas paixões levitam e esbarram nas nuvens
E a beleza de tudo que é vida se torna evidente em cada piscar de olhos
Em cada passo de quem encontrou algum sentido em nascer
Em cada passo de quem sabe o por quê de acordar

A letra fora do alfabeto?

Sempre corri contra uma força que não entendo e em direção a um cais desconhecido. Acho que fujo da banalidade. E, no fim, esbarro na verdade inescapável: quero o que todos querem. No fim, apesar de tudo, sou só mais uma. O fato de desejar o peculiar me torna comum e eu o seria mesmo se buscasse o contrário. É uma barreira instransponível - é como cobiçar a inatingível perfeição. E desistir da perfeição talvez seja meu maior desafio. Não existe um lugar só meu. A vida é pública, o mundo está escancarado e é improvável que eu consiga privatizar caminhos que trilhei. Para que busco a singularidade é o que não entendo. Por que vejo as pessoas como uma grande massa compacta de ideias e absurdos? Eu não sei. E o fato de achar que sou o coringa do baralho, a letra fora do alfabeto, o verso arrancado do poema não significa que eu me veja no alto, entende? Oscilo entre a inferioridade e o patamar geral. Afinal, somos todos diferentes, não? Cada indivíduo enxerga em si aspectos que julga não h…

As Cores e o Nada

Destampa-se o delicado pote de plástico, revela-se o líquido cremoso e seus nuances. É como sorvete derretido, em tons pastéis, firmando um pacto infalível com os olhos. Ingênuos olhos.

É quase inevitável não desejar tocar, sentir, talvez até provar seu sabor amargo e ligeiramente ácido. Conferir, afinal, se alma se beneficia dessa peculiar refeição.

O pincel, então, se aproxima. Provoca ondas de êxtase na superfície lisa. As cores se chocam, se entrelaçam. Círculos de tons e vida se projetam. Refletem no vidro da janela, esteja o sol presente ou não. Refletem nos fascinados olhos. Ingênuos olhos.

Reflexão no Consultório

Reflexão na sala de espera do consultório odontológico.

Um ambiente agradável em sua simplicidade. A imperdoável ausência de revistas. Na falta de imagens para distrair meus curiosos olhos, ocupei-me em observar a rua através da grande porta de vidro. Um número incalculável de carros transitava no curto espaço que me era visível. Automóveis que passavam depressa, que corriam contra algo que eu não podia ver nem tocar. Cada uma daquelas máquinas poluidoras parecia exibir uma faixa na qual se lia 'SUA VIDA AQUI'. Mas eu não podia alcançá-las, era impossível. Eram muitas, e cada qual com seu segredo, sua aventura. Cada qual contendo um pedaço essencial de qualquer coisa, aquela qualquer coisa que ninguém sabe o que é, mas de que todos necessitam. E eu, na minha ignorância e incapacidade de acompanhar o ritmo exaustante do tráfego da vida, só conseguia obter um ínfimo pedacinho do pedaço essencial de qualquer coisa. Eu não podia ter tudo. Eram muitas, e passavam com tanta velocid…

Inércia

Foi durante o dia, logo após o almoço, que ela tomou o elevador e desceu. Olhou de esguelha para o céu, pensando sozinha nos seus problemas e suas tarefas. Dali cinco minutos estaria no trabalho. Ah, que preguiça... Mas, antes mesmo de deixar o condomínio, deparou-se com uma cena que a fez despencar em seu profundo poço de reflexão. Era impressionante. Talvez tivesse uma espécie de vício, mas... O cotidiano lhe despertava um sentimento louco, irrefreável, que conduzia seus pensamentos até a mais infinita divagação.

Da Janela

Todos os dias, ao amanhecer, seu sono é interrompido pelo som indecente do despertador, agressivo, insistente, dispersando as imagens de seus sonhos - sonhos de que ela nem se lembra ao acordar. Coça os olhos brandamente, boceja, senta-se na cama e faz uma tentativa - sempre em vão - de contemplar o céu através da janela de seu quarto. Não consegue enxergar mais do que dois centímetros. Uma coleção de prédios altos impedem sua visão. A rede de proteção a obriga a ver tudo em seus moldes quadrados, retos, regulares. Mas que coincidência... Ter que ver somente o que lhe é permitido, da maneira que lhe é apresentado.

Não. Ela quer ver mais. Ela quer ver para onde as nuvens estão indo, de onde o sol está nascendo, para que lado os pássaros estão voando. Inquieta, enroscada entre seus lençóis e indagações, quer se livrar das grades e dos muros de concreto que escondem a beleza da vida, que lhe roubam a doce paisagem da verdade. Ela quer ver além, muito além. Além da janela, da rede, dos p…

Peripécias da Maioridade

Toda vez que há um aniversário, gosto de perguntar o que as pessoas sentem. E antes que me perguntem sobre mim, já digo logo!

Estou prestes a completar meus primeiros dezoito anos de vida, e devo dizer que me sinto, no mínimo, acanhada. Não que o número 18 tenha alguma importância específica; não indica sorte ou azar, nem pretendo apostá-lo na loteria. A verdade é que se trata de um símbolo, o marco entre duas fases distintas. É claro que não vou
acordar na manhã do dia vinte e nove vivendo uma realidade completamente oposta à que vivia até então. Sei muito bem que nada muda da noite para o dia. Esta data representa um processo de amadurecimento que começa não sei quando e acaba não sei onde.

A Cidade e seus Ruídos

Buzinas, apitos, escapamentos estourados, obras em andamento, gritos,
Eventualmente o canto dos pássaros
É só o que posso ouvir da janela de meu quarto
É tudo que posso ouvir da janela de meu quarto
A cidade e seus ruídos, a magnífica canção da modernidade!


O Desconhecido

Pisamos com nossos pés quentes o chão gélido do asfalto. Enormes poças d'água refletiam nossa imagem ao passarmos. Eu já havia notado, ao acordar, que o céu desta vez se abria cinzento, mas a sensação que trazia não era de melancolia. Era mais como um convite, como quem dissesse 'venha e exale o calor do teu corpo para afastar as lástimas deste mundo frio'.

Leve Encanto

Peguei o metrô pela segunda vez nesta semana. Ah, é, eu ainda me sinto um pouco alheia à toda essa agitação de São Paulo, porque é inegável que tenho vivido nos limites fronteiriços do meu bairro. É provável que no próximo ano - caso ingresse numa universidade - eu comece a fazer parte das grandes multidões hipnotizadas pela pressa que vão e voltam durante todo o dia. Enquanto isso, permito-me a sensação de surpresa e, de certo modo, encanto, quando abandono o conforto do Tatuapé para visitar lugares mais distantes.

Sete de Setembro de 2008

(NOTA: este texto foi publicado no livro Universo Paulistano II, da Editora Andross.)

Era uma manhã em que o céu se encontrava indeciso; o sol se escondia atrás de nuvens ralas, que formavam desenhos, obras de arte estendidas na imensidão azul. As árvores quase não se moviam, não ventava tampouco chovia, mas o ar pairava levemente gélido sobre a cidade.


Uma Pausa

O tempo estava correndo em disparada
mas de repente o tempo parou
O tempo já não se move mais
O tempo estacionou para eu poder respirar
uma pausa, uma pausa
Um suspiro de alívio
Oh, o tempo parou!

É tão incomum que tenha reduzido sua velocidade,
tempo!
É tão incomum que tenha me dado uma chance,
tempo!

Reciclo a oportunidade perdida
O relógio enguiçou, olha só, é hora de me mexer
Aproveito, aproveito:
o tempo parou para eu poder respirar!


Quando o Anjo Subiu

E quando o anjo subiu, tiveram que cortar a árvore, tirar os móveis, limpar as paredes. Jogaram fora a vitrola velha e os discos de vinil eu nem sei que fim tomaram. Quando o anjo subiu tanta lágrima escorreu, tanta foto desbotou, tantos sorrisos eu esqueci; o mercadinho lá em cima também não lembro qual o nome nem qual era o preço dos pãezinhos na época.

Mas me recordo das vezes que jogamos baralho e eu perdi, me recordo dos cafés da manhã e das noites que passamos em frente a televisão, silenciosamente concentrados. E junto com o anjo subiu parte considerável do meu passado, subiu minha infância.
Não sei como que é que anda o quintal - se ainda existir, tenho certeza de que o anjo ainda o observa, lá das nuvens. Tinha uma árvore no telhado também, é! Acabei de me lembrar! Com certeza se desfizeram dela - é uma pena, pobre plantinha.

Lembro que a TV não tinha controle remoto e que às vezes entravam insetos asquerosos por debaixo da porta dos fundos, eu tinha pavor, corria logo a pro…