27 de dezembro de 2010

Eu sonho pela metade

Eu sonho
Pela metade


Pesadelos são concluídos
Antes do meu
Despertar
Interrompido


O relógio não cala
Mas meus anseios são
Abafados


Tudo tão
Descontínuo
Tudo tão
Inacabado


Vida tão
Inacessível
Para que tanto
Labirinto?


Chegar onde?
Se não há
Linha de
Chegada


Se vai
Tudo aos trancos
Tudo aos picados
Com planos truncados


Se a vida é
Só para petiscar
Só para experimentar


Se o que interessa
Fica em aberto
E não dá tempo de
Alcançar


3 de dezembro de 2010

Minha história, um balde de tinta derramado

Minha história,
Um balde de tinta derramado,
Deixa eu contar minha história,
Manchar o mundo

Minha infância,
Livros para colorir,
Giz de cera no lugar dos dedos,
Ou canetinhas esferográficas para desenhar
O impossível

Meus sonhos,
De acrílico, tingidos no céu,
Uns vingaram feito arco-íris,
Outros, pingaram no mar

Meus pecados, poucos,
Incolores,
Sutis,
Feitos à lápis de grafite sem qualidade

Minhas palavras,
Ambíguas,
Muitas cores
(Busquei precisão
Mas continuo rabiscando nas entrelinhas,
Borrando as certezas)

Meus amores,
Uns febris, vermelhos
Outros pálidos,
Desbotaram,
Sumiram nas margens do papel

Minha arte,
O último quadro da exposição,
Pendurado na sala menos visitada do museu,
Às vezes até trancada,
Esquecida

Meu tempo,
Todas as nuances em uma paleta,
Pincéis que perdem as cerdas,
Texturas que se aplainam,
Em um minuto, a cor se esvai

E enquanto traço a vida,
A minha morte,
Uma tela no cavalete,
Intocada,
Espera a minha assinatura


22 de novembro de 2010

Muros multicoloridos

Os muros multicoloridos passam pelos olhos multifacetados dos homens
Nos ônibus, peitos incham em sonhos mutilados
Um homem morde um lanche murcho
Outro homem discute ao celular
Discute os protocolos e pergunta o caminho do cartório ao cobrador
A moça discute, dentro do seu corpo de moça,
Com seu espírito já meio embolorado
Outra moça fita, ambiciosa, as pernas dos passageiros
- Quem dera pudesse pousar o traseiro no banco
Repousar a cabeça na janela
E alçar vôo no sono atrasado

Os muros multicoloridos correm pelos olhos multifacetados dos homens
Mensagens anônimas se propagam com erros ortográficos
Pelos quais o ônibus passa sem se ater à semântica
Pneus tropeçam nas lombadas
Pés tropeçam e pisam calos e unhas encravadas
A catraca gira, corpos atravessam o corredor, aos montes
Não atravessam a si mesmos
Porque não há bilhete único para dentro de si
- Quem dera pudessem se transportar
Para onde os sonhos ainda fulguram
Longe das moléstias urbanas

Os muros multicoloridos somem dos olhos multifacetados dos homens
Dentro dos túneis, ecos e luzes e buzinas
O homem mastiga o último pedaço do lanche
A rotina devora o último fragmento de energia dos passageiros
A senhora se acomoda no assento preferencial
A angústia não tem preferência

Os muros multicoloridos
Refletidos em olhos multifacetados
O motorista dirige o coletivo
E os indivíduos
Muito mal dirigindo suas vidas
Voltam para casa
Monossilábicos


1 de novembro de 2010

Para quem saiu e fechou a porta,

Se você saiu e fechou a porta, não sou eu que vou me levantar para abri-la quando você decidir voltar. Entenda que estou muito bem arranjada no meu colchão, tenho a minha cabeça agasalhada no travesseiro macio, a tênue linha de luzes da cidade que entra pela janela dá gosto de ver. O sono é confortável e a cortina de seda dança ao meu lado para me ninar, impulsionada pela frágil brisa que me visita com frequência nessas noites de primavera. Tudo está em seu devido lugar: fiz uma faxina recentemente, minhas camisas estão passadas e dobradas na gaveta como se tivessem sido atropeladas por um rolo compressor, os casacos organizados lado a lado em seus respectivos cabides, meus sapatos e sandálias proporcionalmente empilhados no cesto de vime. Ah, e as roupas antigas foram doadas. Nas estantes, os livros enfileirados por ordem alfabética e os CDs, por ordem de preferência. O rádio portátil fica em cima do criado-mudo tocando músicas suaves no volume ideal. Há no chão um copo de água sem gelo, caso eu sinta sede, e o controle remoto da TV, caso eu perca o sono e queira assistir à uma comédia romântica cujo final saberei desde a primeira cena.

Mas eu não vou perder o sono, de certo que não vou. Já bocejei três vezes consecutivas de forma quase voluptuosa: a sonolência me seduz lentamente. Quando alcançá-la, não estarei mais aqui, você entende? No mesmo mundo em que você está. Estarei no reino dos sonhos. E a porta do meu quarto, fechada, mortalmente fechada.


De quem não terá o trabalho de abrir a porta.



21 de outubro de 2010

Sem pausa para o lanche

( A pequena prosa a seguir intertextualiza com a escrita por Guilherme Palley, aqui )

Fiquei sabendo como é andar nas entrelinhas e cair no meio do parágrafo, mas procurei aguçar a visão e enxugar os dedos para que o próximo passo pudesse ser dado. Eu devia subir de volta, me agarrei à virgula: nada de ponto final. Não queria me perder, apenas continuar com os meus versos, sem me exceder, podendo, assim, permanecer nas entrelinhas. É preciso ter cuidado, é preciso ter manejo, uma palavra e eu me denunciaria: uma palavra e a tragédia estaria consumada. É certo que sinto o arrebatamento, sinto os murros, eu estou sempre nesse estado de oscilação, para a esquerda, para a direita, me equilibrando na linha reta, mas você sabe: não tenho régua e às vezes o verso fica torto pra valer.

Subsisto nas entrelinhas mesmo, muitas palavras são indizíveis, o próprio conceito de belo é indizível. Então, por instantes, desisto de despejar as palavras e deixo que jorre o silêncio, aquele silêncio que é por si um poema inteiro, que é por si uma síntese de tudo o que foi, o que é e o que ainda será. Não é preciso estar só, ou diante do precipício, para que me venha o delírio, avassalador, amarrando meu corpo na curva das letras nunca escritas. Não choro, apenas sinto, sinto o calor que vem desse papel amarelado sem alma, mas que quer tê-la, que quer viver, que quer pulsar, e que, vazio de letras e versos e entrelinhas, diz tudo o que é capaz de dizer um coração que ama. ®


7 de outubro de 2010

Manoel de Barros - Entrevista #1

CONVERSAS POR ESCRITO
(Entrevistas: 1970 - 1989)

1. SOBREVIVER PELA PALAVRA

a José Otávio Guizzo
Revista Grifo, Campo Grande, MS.

P. Como é que começou a fazer poesia; que elementos influenciaram a sua formação poética?

R. Acho que foi a minha inaptidão para o diálogo que gerou o poeta. Sujeito complicado, se vou falar, uma coisa me bloqueia, me inibe, e eu corto a conversa no meio, como quem é pego defecando e o faz pela metade. Do que eu poderia dizer, resta sempre um déficit de oitenta por cento. E os vinte por cento que consigo falar, não correspondem senão ao que eu não gostaria de ter dito - o que me deixa um saldo mortal de angústia. Mesmo desde guri, no colégio, descobri essa barreira em mim, que não posso vencer. Sou um bom escutador e um vedor melhor. Mas só trancado e sozinho é que consigo me expressar. Assim mesmo sem linearidade, por trancos, por sugestões, ambíguo - como requer a poesia.
Sobre elementos que influenciaram a minha formação, agora essa inaptidão para o diálogo, talvez um sentimento dentro de mim do fragmentário, laços rompidos, o esboroo da crença ainda na adolescência, saudade de Deus e de casa, ancestralidade bugra, nostalgia da selva, sei lá. Necessidade de reunir esses pedaços decerto fez de mim um poeta. A incapacidade de agir também me mutila. Sou pela metade sempre, ou menos da metade. A outra metade tenho que desforrar nas palavras. Ficar montando, em versos, pedacinhos de mim, ressentidos, caídos por aí, para que tudo afinal não se disperse. Um esforço para ficar inteiro é que é essa atividade poética. Minha poesia é hoje e foi sempre uma catação de eus perdidos e ofendidos. Sinto quase orgasmo nessa tarefa de refazer-me. Pegar certas palavras já muito usadas, como as velhas prostitutas, decaídas, sujas de sangue e esterco - pegar essas palavras e arrumá-las num poema, de forma que adquiram nova virgindade. Salvá-las, assim, da morte por clichê. Não tenho outro gosto maior do que descobrir para algumas palavras relações dessuetas e até anômalas.

Veja mais aqui!

24 de setembro de 2010

Um ensaio quase lírico

Mais um gole de vinho? Segure firme o seu copo. Pronto, agora sim. Me acompanhe até a sacada, fazendo favor, quero lhe dar uma palavrinha. Como você pode ver, a chuva vem desmaiando por cima dos telhados frágeis da cidade. Em seguida, escorre desesperada pelas paredes pichadas e cobertas de fendas; é abrigada pelo asfalto, onde se põe horizontal e oscilante a deslizar até o meio-fio. O seu inevitável destino são os bueiros, onde se esconde, tremediça e ruidosa, e sobrevive por mais uns dias até evaporar, se esgotar e inexistir. Por que estou lhe contando isso? Ora, você não percebe? Assim vivemos todos nós, meu caro, a nos meter nos esgotos do corpo, ali onde tudo é torpe e imoral. Sim, evidentemente, há vezes em que o bueiro entope e regurgita a chuva embalada pelo lixo e a escória urbana - com o perdão da analogia. Sei que daqui de cima a visão é fascinante, as nuvens bamboleando pelo céu e as milhões de luzes vomitadas pelas janelas de casas e apartamentos onde famílias se amam e se repudiam e jantam agora assistindo ao jornal na televisão. Sei que aqui você se sente capaz de envolver o mundo e pensa que a cidade te acolhe como a um filho, quando na realidade nem se lembra que você à ela pertence. Não, não lembra, o que você está achando? Que com suas tintas e seus pincéis de cerdas raras, que com seus cadernos e seus versos embaraçados, que com seu violão e sua melodia desafinada... Ora, tenha dó! Está achando que por seus olhos demasiado sensíveis e sua arte desajustada a cidade vai-lhe dar algum mérito? Você ainda tem muito o que aprender. O quê? Sim, eu sei, você já tem aí os seus fios de cabelo brancos e a calvície a lhe atentar a estética, e eu que posso afirmar das coisas da vida? Só quero, meu caro, alertar-lhe sobre o que tenho visto, esses artistas vivendo à margem da razão, sempre no limite da esperança, uns teimando ainda que no anonimato, outros corrompidos pela fama, está entendendo? Tudo bem, a poesia, sei o que está querendo dizer, mas temo pela sua sanidade, que muitas dessas figuras acabam no esgoto como a chuva, evaporam, se esgotam e inexistem sem que se tenha notícia. Não quer virar notícia? Entendo. Sua sobrevivência? Mas, meu caro, não é a arte que te sustenta, sabe muito bem que pode um dia ainda passar fome por alimentar além da conta a ideia imprudente de ser um artista e... Como? Fernando Pessoa? Ah, sim, sim, compreendo... "Confissão de que a vida não basta". Muito bem, você está certo. Quem sou eu para discordar de um artista, hein? Vamos, tome mais um gole de vinho, vamos brindar. Aos artistas? Não abuse da minha boa vontade, ora essa! Brindemos à chuva, à chuva e à sua lenta morte nos esgotos, pode ser assim?


17 de setembro de 2010

Tem um cílio na sua bochecha

A Lua hoje sorria incrustada no absoluto breu do céu. Lua crescente, sorriso sem olhos que se erguia acima de um prédio cujas janelinhas brilhavam quase todas. Se o céu estava desligado, as luzes da cidade não o deixavam descansar, assim como a Lua, imaculadamente jovial, com seu sorriso incansável que pendia a esmo. Sei que ela sorria para mim enquanto eu subia as escadas a mirá-la. Retribui, porque é assim que se faz. Nos aglomerados urbanos, os outros afastam os olhares, escondem as pupilas no chão, forçam nos lábios o desenho de uma indiferença afetada. Não se quer olhar, não costumam sorrir. Trocam insultos no trânsito, trocam empurrões nas calçadas, trocam dinheiro e mercadoria nos supermercados e os sorrisos? Esses ficam guardados no avesso do corpo esperando um nobre motivo para serem ensaiados nos lábios. A Lua não, entende? A Lua já estava ali sorrindo com graça no escuro me esperando chegar em casa. Subi as escadas, atravessei o pátio, tomei o elevador. Em meu quarto, abri a janela e a Lua ainda me sorria, talvez um pouco mais deslocada para a esquerda. Não sei em que ponto da história o sorriso gratuito perdeu o seu espaço, se é que um dia o teve. E a Lua ali era tão confortável que por instantes soube que não precisava de outra companhia. Há mesmo certas coisas no mundo tão extraordinárias por si mesmas que de repente alguém poderia até suprimir toda a humanidade e deixar só aquele bichano rolando no chão, agarrando um novelo de lã, aquela bolha de sabão que se pinta com as cores do arco-íris e flutua como se valsasse no ar, aquele dente-de-leite branquinho que mãe guardou de recordação em uma caixa de madeira no fundo do armário. Em verdade o viver é tão fabuloso, tão excepcional que não cabe em si, de modo que seus excessos recaem sobre nós em forma de inquietação. Mas é só a Lua sorrir para mim, ou uma borboleta pousar ao lado dos meus pés, ou as folhas secas e amareladas dançarem em círculos no gramado como em um ritual, ou mesmo uma palavra aconchegante rebentar de uma boca inesperada - tudo isso pode, em partes, me acalmar. Pois a beleza, me responda, carece de ser sublime? No meu peito lateja um coração apaixonado pelo ínfimo, sim, apaixonado por esse cílio perdido bem no meio da sua bochecha rosada - sem brincadeira, me causa um alvoroço sem limites! Desconfio que seja por isso que a Lua está sorrindo tanto essa noite. Porque, olha só... Tem um cílio na sua bochecha.


12 de setembro de 2010

Todo mundo já pousou na janela.

Apoiou a palma das mãos no parapeito, arremessou as pupilas pequeninas ao largo céu onde elas se perderam com encanto ou aflição. Todo mundo já recostou a cabeça no vidro do ônibus, do metrô, do carro e fechou com cuidado as pálpebras só para sentir os cílios oscilando nas maçãs do rosto. Todo mundo já correu para flagrar o beija-flor que fazia espetáculo do lado de fora e lamentou ao ver o passarinho, sem mais nem menos, voar para longe e desaparecer em questão de segundos. Todo mundo já espiou devagar as redondas gotinhas de chuva que gracejam na superfície do vidro ou os raios de sol que desfilam sem pudor pela sala em um dia distinto de verão. Mas, quando se trata da vida, prefiro abandonar a janela, mesmo que custe muita audácia, e sair pela porta renunciando ao papel de espectadora. Todo mundo precisa ser visto do lado de fora por um outro alguém pousado na janela. E fazer tudo o quanto é possível enquanto se está fora de casa com o mundo ao alcance das mãos.



# Ilustração da Luyse

9 de setembro de 2010

Quem dera ser como as pipas que eu via sacolejar no céu mesmo quando tínhamos mau tempo e chovia.

Nos fins das tardes cinzentas e perigosas eu costumava ficar feito estátua diante da janela da casa da vó. Cobria-me de paz e silêncio e contemplava os trovões - insuficientes para intimidar uma ou outra pipa que sapateava entre as gotas precipitadas. Era de admirar que aqueles losangos coloridos feitos de papel sobrevivessem mais do que cinco minutos debaixo dos grandes temporais a que eu assistia com interesse; mas lá estavam elas, sacolejando daquela maneira peculiar e característica das pipas. Admito que não entendo muito de pipas, de modo geral são feitas para a diversão dos garotos e ninguém nunca me ensinou a empiná-las. Mas de uma coisa eu sempre soube: elas voam alto, bem alto, sem medo... Perto das nuvens carregadas, perto do sol reluzente, talvez até perto do limite do mundo!





# ilustração da Luyse

8 de setembro de 2010

Alguns tópicos da Poética de Aristóteles

1.
Epopeia, tragédia e ditirambo são imitações com o ritmo, a linguagem e a harmonia, usando este elementos separada ou conjuntamente.

2.
A epopeia é a arte que recorre ao simples verbo.

3.
Poesias há que usam de todos os meios sobreditos, isto é, ritmo, canto e metro, como a poesia dos ditirambos e dos nomos.

6 de setembro de 2010

Uma dose de silêncio antes de sumir

Tomaram uma dose de silêncio antes de iniciarem a conversa. Ele abriu a garrafa de vidro, serviu os dois. Brindaram sem se olharem, beberam sem que o ato de engolir produzisse um ruído sequer. O silêncio dele era, de algum modo, letal. Ela sabia que morreria em poucos minutos. E precisava dizer. Mas a bebida fazia sua garganta queimar, não conseguia soltar a palavra. Ele não lhe dirigia o olhar nem se aproximava, temendo parecer que estivesse fazendo pressão. Ela observava o nada, sem saber que ele também. Pegou a garrafa, encheu o copo, bebeu devagar. Agora é que ela não falaria mesmo. Ele a olhou com certo desespero. Quis pedir que ela dissesse logo, antes que fosse tarde. Mas ela tomou até o último gole. Quis abraçá-lo para se despedir, mas ele a recusou. Queria apenas as suas palavras. Na verdade, chegou até a empurrá-la de leve, com um pouco de grosseria. Arrependeu-se de ter trazido o silêncio. Agora ela desaparecia aos poucos antes de ter falado. Os olhos dos dois jamais se interceptavam, era ilícito. Ele, por sua vez, foi sendo tomado por um alívio que não sabia explicar. Seria melhor assim, ela longe, ela inexistente. Afinal, não significava nada sem as suas palavras. Sua matéria não importava, essa era a verdade. Foi a primeira vez que pensou lucidamente sobre isso. Não a queria, só pensava em suas palavras. E que importava se estava sumindo sem ter se despedido? Suas palavras seriam eternas, e ele as tomaria para si.




" (...) e nesse instante o rumor da vida, como se o tivesse convocado a sua voz, ou apenas entrando de repente por uma porta que alguém de par em par abrisse sem pensar muito nas consequências, ocupou o espaço que antes pertencera ao silêncio, deixando-lhe apenas pequenos territórios ocasionais, mínimas superfícies, como aqueles breves charcos que as florestas murmurantes rodeiam e ocultam. " (José Saramago, em O Evangelho segundo Jesus Cristo)

5 de setembro de 2010

O subterfúgio

Tentei explicar à minha mãe, sem apelar à subjetividade, porque é que virou moda meter fones nos ouvidos durante viagens de ônibus e metrôs. Se você quer pedir informação, acaba acidentalmente escolhendo (a dedo) o rapazinho na janela, de olhos perdidos na calçada do lado de fora, ouvindo músicas que você talvez nunca descubra quais são (você pensa, talvez seja melhor continuar não sabendo), e que, sentindo-se tremendamente incomodado com a interrupção, lhe responderá de má vontade.
Procurei dizer à minha mãe que o cotidiano é feito de mesmice, que as paisagens se repetem, que as pessoas têm um certo mal-estar social, essas coisas, e que ouvir música rompe, mesmo que por instantes, com a insatisfação de viver sempre do mesmo modo, chacoalhando bruscamente no ônibus, cambaleando no metrô e trombando nos outros pelas passarelas.
Mas, se antes de dizer isso à ela, eu tivesse podido responder por escrito, eu teria dito mais.
Veja bem, teria dito que a melodia paralela ao movimento esboça uma sensação de liberdade, a imaginação se desprende, atravessa a catraca, os trilhos e voa longe, e se, por alguns instantes, você fechar os olhos, sentindo as oscilações do ônibus ou do metrô e se concentrando com ardor nas notas, você poderá sentir que está flutuando junto à sua imaginação, e que de braços dados vocês percorrem a cidade do alto, bem do alto, acima dos prédios e tudo o mais. Eu teria dito que a melodia se torna a própria trilha sonora da vida, que os ritmos se adaptam perfeitamente ao vai-e-vem dos carros na rua ou dos pedestres nas faixas enquanto as luzes dos semáforos se alternam incansavelmente e a música vai ressoando dentro de você, acendendo-o também, convidando-o a bailar dentro de si, apertando as mãos da alma enquanto se dança por todo o salão do corpo. O físico e o imaterial se fundem em uma só existência que é feita de movimento e som, indissolúveis, o céu parece ter caído sobre você para então erguê-lo como que em um tapete mágico que o leva para fora de si, muito bem: agora você abandona seu corpo e o baile e é levado outra vez, ah, não há como escapar, é a música quem leva você, é a música quem ouve você e o movimento do ônibus continua, o metrô corre seus trilhos, motoristas e maquinistas conduzem seus transportes coletivos e a rotina se impõe dia após dia: não há como escapar, a não ser através do som e do movimento.
Está certo.
Taí o que eu teria dito à minha mãe.


2 de setembro de 2010

Um coração comporta extremos

E o pulso ainda pulsa
(Arnaldo Antunes)
Comporta o tédio e a ação, o tumulto e a solidão.
Um coração carrega o silêncio e a explosão, a ignorância e a informação.
Um coração atura o tapa e a adulação, a indolência e a emoção.
Um coração aceita o inaceitável.
Aceita a ira e a paixão, o erro e a reparação.
Permite o brilho e a escuridão, a incerteza e a exatidão.
Um coração é elástico: imprecisão.
É volátil, nascido da perturbação.
Um coração incha e se contrai, sem restrição.
Um coração se sustenta na transformação.
Coração: sem interrupção. ®

(inspiração vinda de dentro de um copinho de café, na manhã de hoje, resultou numa série de rimas pobres porque o coração comporta a miséria)

31 de agosto de 2010

Do inverno à primavera

Vi folhas dançando no chão nos últimos dias de inverno, folhas que sapateavam no coração em uma manhã fria de sol. Pedi que a dança nunca chegasse ao fim, prometi não desistir dos meus olhos que vêem tudo o que tenta se esconder entre as árvores e a rotina, prometi não desistir das mãos que nada querem deixar escapar, prometi não esboçar o último verso do poema para que o poema seja interminável, descobri a arte de pôr arte em tudo e não vou partir, não vou partir, a beleza me prende e a primavera me espera: eu me rendo às flores.



(aquela inspiração que vem quando se está ouvindo música, esperando o ônibus e vendo as folhas literalmente dançarem na calçada)


20 de agosto de 2010

Viagem

No mapa do corpo
Os limites da alma
Estradas, na palma,
Da mão, que apalpa
Estradas, que o pé percorre
E nos olhos corre
O mundo inteiro
Imerso no mapa do corpo
O corpo que viaja
Além do Atlântico
E dentro de si mesmo
A esmo

(segundo poema feito em sala de aula, e não é que essa história de espontaneidade artística dá um baita bem-estar?)


15 de agosto de 2010

Um belo enterro

Esperou cessar o ronco da moto que corria rasgando a madrugada. Atravessou a rua. Tudo estava deserto. Olhava para os lados a cada trinta segundos. No céu, um vazio estonteante. Ao longe o ruído do metrô em sua última viagem da noite. Sentia a respiração densa, os olhos úmidos. As mãos estavam secas e ásperas. Fazia frio. Abriu o portão enferrujado do parque e entrou. Uma coruja deu seus cumprimentos. Um vulto roçou sua canela e desapareceu na escuridão. Devia ser cachorro abandonado. Depois de ter dado uns setenta e dois passos seguindo pelo caminho da direita, ouviu o som abafado do portão sendo fechado. Não olhou para trás. Parou e observou a silhueta de um balanço quebrado. Suspirou. Algo se moveu na copa de uma árvore e alçou voo. Seus olhos esbarraram na Lua que só então se pronunciara. Tornou a caminhar, sem pressa. Deslizava no breu. Tropeçou em uma raiz, mas não caiu. Riu de si. Enfiou as mãos nos bolsos, revirou. Ajoelhou-se diante de um canteiro de flores que não tinham cor porque era madrugada. Com uma mão, cavou um buraco na terra. Cavou, sujou as unhas de terra. Olhou para trás, nada viu. Cavou um pouco mais. A mão que revirava o bolso emergiu e depositou o medo no buraco. Ajeitou-o bem no fundo. Agora era hora de tapar o buraco. Fizera-o com tamanha perfeição que ninguém jamais descobriria que ali havia sido enterrado o medo. Levantou-se, limpou as mãos na camisa, retirou-se e nunca mais voltou para buscar o que viera trazer.


13 de agosto de 2010

Escrevam - disse ele

Uma poesia
A menção à poesia
O pensamento na poesia
Roça a alma, acaricia
Assalta do peito a disforia
Abre o apetite e então sacia
A ânsia de sentir colorir o dia
O dia
Que depois da poesia
Se torna a própria poesia


(Acabei de sair da minha primeira aula de Estudos Comparados da Literatura em Língua Portuguesa - nome muito longo para uma única disciplina, por sinal. E foi também a primeira vez que produzi em aula desde o início do curso.)


4 de agosto de 2010

Divulgações

Meu primeiro livro, Menino sem Nome, está sendo divulgado no portal Guia do Bebê, da UOL, onde O Canto das Artes (o ateliê em que trabalho) anuncia. Para conferir, clique aqui.





Para ver o livro no site da Bienal, clique aqui e digite Menino sem Nome em Título.











" O menino sem nome estava concentrado, meditava. Eu o lia de perfil. Via seus cílios descendo e subindo ao piscar. Via sua boca abrir e fechar ao respirar. Via seu nariz inspirar o ar como se inspirasse vida. A vida que entrava e saía de seus pulmões, que enchia todo o seu corpo, a vida que circundava sua pele, a vida que se enraizava em seus ossos e músculos e a vida que batia junto ao seu coração, que pulsava, que palpitava... Quis assaltá-lo, quis transferir para mim o sopro de energia que seus lábios expiravam, quis roubar a sua força e a sua pureza e a sua vitalidade... Quis sê-lo. Segurei e apertei seu pulso. Ele se voltou para mim. Quatro pupilas se espreitaram. Eu podia ver o meu reflexo nos seus olhos e ali minha imagem era pequena, ínfima; o menino sem nome era redondamente humano e eu não, eu era de outra espécie, eu não existia, quem sabe eu fosse de outro planeta... " ®

31 de julho de 2010

Termo e meio

A tarde transita
entre o sol da manhã
e os becos da noite

Ecos embaralhados
de um grito quente
e um sussurro frio:

Da penumbra da alma
da claridade dos olhos
e do breu do coração


29 de julho de 2010

Capa - Menino sem Nome


" Deitei em minha cama, sentindo a maciez do colchão, amarrotando os lençóis, esticando meus braços para o alto como se tentasse tocar o teto. Cerrei os olhos sem apertá-los, respirei demoradamente, toquei a campainha da minha alma. Ela me fez esperar algum tempo. Existir, de repente, me pareceu uma mentira. Eu não estava ali. Era tudo imaginação. Não sentia meu corpo, não podia mais mover meus braços, nem abrir os olhos. Era uma miragem. Eu me enxergava de cima, podia ver meu corpo estirado na cama, e meu espectro sentia pena daquela carne que pensava ser verdadeira. A sensação durou pouco. Eu quis tornar a senti-la, quis sair do meu corpo outra vez, ver-me de outro ângulo, mas era impossível retornar ao estado anterior. Por uma vez até duvidei que tivesse acontecido. Sentei-me, fitando o guarda-roupa fechado. Fechado. Minha alma havia se fechado outra vez.
Mas, afinal, o que aconteceria se eu a tivesse excedido? "
(Menino sem Nome - Aline Veingartner) ®

Está chegando!

28 de julho de 2010

Poema feito com pressa

Sem tempo, sem tempo, rabisco
Sem fome, sem fome, petisco
Se tenho coragem arrisco
E o verso atrasado:
Um risco


21 de julho de 2010

Um sonho

Quem já realizou um grande sonho sabe o quanto ficamos eufóricos quando aquilo que desejamos desde pequeninos está prestes a acontecer! Tenho pensado muito no que me aconteceu nos últimos meses e me sinto particularmente afortunada. Vou conseguir lançar o meu próprio livro antes de completar 20 anos! É mais do que meu coraçãozinho pode aguentar :)


Data: 14 agosto de 2010 - sábado - Itaú Cultural - a partir das 19hs
Coquetel de pré-lançamento da Antologia Delicatta (da qual participo publicando dois poemas), premiação, autógrafos e sarau. O Instituto é um centro de referência cultural, há mais de 20 anos promovendo e divulgando a produção artístico-intelectual brasileira.
Entrada franca.
Endereço: Av. Paulista, 134 - Bela Vista, São Paulo - SP, 01310-000
Como chegar



Data: 15 agosto de 2010 - domingo - 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo - a partir das 18h30hs

Lançamento da Antologia Delicatta
no estande da editora Scortecci
Entrada: R$ 10 (inteira), R$ 5 (estudante)
Endereço: Pavilhão de Exposições do Anhembi - Av. Olavo Fontoura, 1.209 - Santana - São Paulo/SP
Como chegar


Data: 17 de agosto de 2010 - terça-feira - 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo - das 16hs às 18hs

Lançamento do meu primeiro livro Menino sem Nome no estande da editora Multifoco
Entrada: R$ 10 (inteira), R$ 5 (estudante)
Endereço: Pavilhão de Exposições do Anhembi - Av. Olavo Fontoura, 1.209 - Santana - São Paulo/SP
Como chegar

Análise do Poema: Soneto do Amor Maior - Vinicius de Moraes

* Caso você esteja usando esta análise para o seu trabalho, peço que, por favor, faça a devida referência.

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo

2 de julho de 2010

Trechos de Histórias Extraordinárias - Edgar Allan Poe

A queda da casa de Usher

"Eu sentia que respirava uma atmosfera de tristeza. Um ar de severa, profunda e irremissível melancolia pairava sobre tudo, envolvia tudo."

"E assim, à medida que uma intimidade cada vez maior me permitia penetrar, sem certas reservas, no recesso de seu espírito, mais amargamente percebia a inutilidade de qualquer tentativa no sentido de alegrar um espírito cujo negrume, como se fosse uma qualidade positiva e inerente, se esparzia por todos os objetos do mundo físico e moral, numa irradiação incessante de tristeza."

O barril de Amontillado

"- Vamos - disse-lhe com decisão. - Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não importa. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi..."

O gato preto

"Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões frequentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem."

Berenice

"O infortúnio é múltiplo. A infelicidade, sobre a terra, multiforme. Dominando, como o arco-íris, o amplo horizonte, seus matizes são tão variados como os desse arco e, também, nítidos, embora intimamente unidos entre si. Dominando o vasto horizonte como o arco-íris! Como é que pude obter da beleza um tipo de fealdade? Como pude conseguir, do pacto de paz, uma símile de tristeza? Mas, como na ética, o mal é uma consequência do bem e, assim, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que são têm a sua origem nos êxtases que poderia ter sido."

"Foi nesse aposento que nasci. Despertando, assim, da longa noite que parecia ser - mas não era - o nada, e vendo-me, de repente, nas verdadeiras regiões de um país de fadas, num palácio fantástico, nos estranhos domínios do pensamento e da erudição monásticos, não é estranho que olhasse tudo com olhos surpresos e ardentes, que esbanjasse a minha infância debruçado sobre livros e dissipasse minha juventude em sonhos; mas o estranho é que, com o passar dos anos, eu me encontrava ainda, em plena maturidade, na mansão de meus pais; o maravilhoso é esse estancamento que caiu sobre as fontes de minha vida, maravilhosa a total inversão operada na natureza de meus pensamentos mais comuns. As realidades do mundo afetavam-se como visões, apenas como visões, enquanto que as ideias loucas da terra dos sonhos se tornavam, por sua vez, não o material de minha vida cotidiana, mas, realmente, minha inteira e única existência."
"Contudo, minha memória estava cheia de horror - horror tanto mais horrível por ser vago, e terror mais terrível pela sua ambiguidade. Era uma página espantosa do livro de minha existência, escrita, toda ela, de recordações vagas, atrozes e ininteligíveis. Esforcei-me por decifrá-las, mas em vão; de quando em quando, como se fosse o espírito de um som morto, um grito de mulher, penetrante e estridente, parecia soar em meus ouvidos. Eu havia realizado um ato... Mas qual? Dirigia a mim mesmo essa pergunta em voz alta, e os ecos sussurrantes do aposento respondiam: 'Mas que ato foi esse?'"

Os crimes da rua Morgue

"Dirigir a uma estrela um rápido olhar, examiná-la obliquamente, voltando para ela as partes exteriores da retina (mais suscetíveis às ligeiras impressões da luz que as interiores), é contemplar a estrela de maneira diferente, é apreciar melhor o seu brilho, brilho que diminui à medida que voltamos nossa visão em cheio para ela. Um número muito maior de raios incide sobre os olhos neste último caso, mas, no primeiro, se obtém uma receptividade mais apurada. Por meio de uma profundidade indevida, perturbamos e debilitamos os nossos pensamentos - e é impossível fazer-se com que a própria Vênus se desvaneça no firmamento, se a fitarmos de maneira muito demorada, muito concentrada ou muito direta."

O mistério de Marie Roget

" (...) deixamos o futuro inteiramente entregue ao acaso e adormecemos tranquilamente no presente, transformando em devaneios o monótono mundo que nos cercava."

A Carta Roubada

"- Não é inteiramente tolo - disse G ... -, mas é poeta, o que o coloca não muito distante de um tolo."

Nunca aposte sua cabeça com o diabo

"Olhei desabridamente para meu amigo, enquanto assim me diriga a ele; pois, para falar a verdade, sentia-me particularmente perplexo, e quando um homem está particularmente perplexo, deve franzir as sobrancelhas e parecer selvagem; de outro modo, pode estar perfeitamente certo de que parecerá um louco."

O poço e o pêndulo

"Também me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente à tranquilidade sobrenatural desse mesmo coração."

"Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção de vida não fazia parte dos planos de meus algozes."

"Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos."
"Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança diante de um brinquedo raro."

" (...) passou-se pelo espírito um vago pensamento de alegria... de esperança. Não obstante, que é que eu tinha a ver com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago - desses que ocorrem a todos com frequência, mas que não se completam. Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo... por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota."

A aventura sem paralelo de um tal Hans Pfaall

"Era o que as pessoas chamam uma senhora mulher, e podia tratar muito bem de seus negócios sem a minha assistência. Creio até, para dizer tudo, que ela me olhara sempre como um triste parasita, um simples complemento de peso, um enchimento, uma espécie de homem bom para construir castelos no ar, e nada mais, e que não ficava zangada por desembaraçar-se de mim."

O escaravelho de ouro

" (...) porque na verdade havia no agradável solitário qualidade para despertar interesse e estima. Vi que tinha recebido uma esmerada educação, completada por faculdades espirituais pouco comuns, mas que se achava contaminado por uma aversão à sociedade e sujeito a infelizes alternativas de entusiasmos e melancolia."

Veja mais aqui!

20 de junho de 2010

Hjelmslev

Louis Hjelmslev,
linguista dinamarquês
"A linguagem - a fala humana - é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade, seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavam a nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dias retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da personalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextricavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas."

13 de junho de 2010

Desabafo social mal escrito

(Breve relato do que pensava enquanto esperava meu ônibus todas as manhãs, em um ponto próximo ao metrô República)
Descubra o que há do lado de cá. Chega mais perto e veja a que ponto chegamos. Se é que chegamos. Não é possível que aqui seja o final. Por favor. Me diga que é o meio da estrada, que há ainda muito o que caminhar, que vão ainda lavar a roupa suja, tratar os dentes podres, limpar a calçada pintada de urina e dor. Por favor. Fale que há uma saída. Fale que tudo vai mudar antes de eu fechar os olhos e dormir para sempre e que nesses bancos as pessoas estarão sentadas, despertas, nutridas. E que corpos poderão se cansar, mas nunca os corações. E os ônibus transportarão corações cheios de esperança. E a esperança brilhará com o sol, ou cairá sob forma de chuva. Diga que há esperança! Vem aqui perto, olha aqui, olha o homem caído no chão, e diga que é a última vez. Diga que amanhã haverá uma cama. Diga que amanhã haverá um emprego. Diga que existe dignidade, pelo amor de Deus, que existe dignidade fora das páginas do dicionário! Diga que portas se abrirão. E diga que sou boa. Por favor. Diga que sou boa mesmo não fazendo nada que dê resultados. Diga que sou boa só por estar sentindo o peso dessa miséria isenta de beleza comprimir meu espírito. Diga. Diga que não vou pagar por ser tão limitada e porque a capacidade de me sensibilizar afeta meus dedos, os faz escrever, mas não muda nada. Não muda absolutamente nada. Diga que adianta alguma coisa! Diga que não é nula minha tentativa de mostrar que me impressiono, que me faço indignada a cada dia, que dizer que estou acostumada é só uma ilusãozinha barata. Não me habituo. Diga que as pessoas também se assombram. Diga que refletem. Diga que fazem algo. Nem que se pintar um quadro. Nem que seja contar aos filhos. Diga que as pessoas enxergam, diga que veem o que vejo e sentem o coração torcer, retorcer, se contrair até quase inexistir. Eu preciso saber que não sou a única que se sente sufocada pela impotência.

Outro dia eu vi um homem. Um homem sentado com um saco de coisas imundas ao lado. Um homem de barba e cabelos imundos. De unhas imundas. De, talvez, uma existência imunda. Eu vi um homem que apoiou um caderno nas pernas e escreveu. Eu daria tudo para ter lido o que o homem escreveu. Eu estava no ônibus, sentada e quente, protegida e limpa. Eu estava no ônibus voltando para o meu bairro, onde meu emprego estaria me esperando. E é assim. O ônibus foi, o homem ficou, e sabe-se lá por quantos anos o homem ainda estará lá, sendo. Sendo algo que desconheço. Sendo algo que obviamente não quero ser. Mas não aceito que existam homens sendo, apenas sendo. Não admito. Mas não me movo. Fico aqui, fico aqui, escrevendo, porque não sei o que deveria fazer. Estou aqui, segura, e os homens lá. Os homens lá. Não é certo. Mas também não é errado. Não há conclusão. É isso: não há conclusão. ®

8 de junho de 2010

Dez meses desmedidos

Você bem sabe quanto amor confio eu às palavras, bem sabe como é irresistível o ardor da metáfora que salta aqui do peito para a ponta dos dedos e me faz obstinada e dependente. Penso às vezes que vou reclinar e lhe destinar apenas o plausível, o afago na face, a doçura da compreensão, o auxílio imediato, mas - peço perdão por isso - não sou capaz de me conter e imagino logo a forma de um poema ou mesmo invento uma analogia espontânea e livre quando seu rosto está bem conectado ao meu e os nossos olhos se embriagam um no outro e escorrem juntos no fluir do tempo que parece inexistir porque no sentir não cabem as horas. Você é arte. Você todo é a arte, a poesia, a música, a escultura, o quadro raro na parede quase nua da minha existência que venho pintando devagar para não terminar tão cedo.

Penso toda vez que já não resta mais nada, penso que minhas palavras talvez tenham escapado do paradigma, tenham talvez banalizado pelo excesso do uso - todavia cá estão, frescas, úmidas, as mesmas de sempre mas numa nova projeção. Não sei, não sei, meu coração amortece indagando se não seria já o momento de parar, de interromper o fluxo quase devastador das palavras que vão desistindo de mim e insistindo em você, investindo em você : em mim já morreram e agora são suas. Você talvez tenha ouvido falar em amor à primeira vista; pois eu o amo a todas as vistas, e o ama também o meu indomável vocabulário, sedento em se transformar em qualquer coisa que seja agora sua, que seja agora para você.

Para você perceber que além das palavras e além dos gestos existe um amor que vai além do amor e as palavras traem a si mesmas pensando ser possível exprimi-lo. Podem espremer o amor, espancar o amor, empobrecer o amor, inventar o amor porém jamais exprimi-lo. E de algum modo um alvoroço é sublinhado aqui dentro, já passa da meia-noite e agora eu posso desmedi-lo, deslaçá-lo na escuridão crua do inverno tecendo sentenças porque é o que sua ausência me orienta por ora. Se acaso estivesse aqui, suponho, substituiria essa morna tentativa de sabe-se lá o quê por um olhar que diria a um só tempo: tudo. Tudo em você é tão perigosamente amável, tão deliciosamente jovem e surpreendente que em minha íris se reflete algo como uma ávida imperfeição. Pois é que o amo assim.

Sem tirar nem por, com seus pés longos e chatos, seu rosto liso apenas salpicado pela barba que teima em despontar ansiando afirmar a sua maturidade - mas homem! Eu bem conheço seu espírito crescido, prudente e risonho. E o amo desta maneira: quando se senta de pernas abertas feito um bruto ou quando as cruza num ato quase sutil; quando aperta minha mão até doer ou quando, distraído pelo diálogo, esquece-se de segurá-la com vigor; quando conversa mirando meu rosto com atenção ou quando lança os olhos ao nada, como se vagasse por ruas longínquas; quando sussurra doce e tenro e eu tenho que fazer força para compreendê-lo ou quando, sem perceber, fala tão alto qual uma potente caixa acústica; quando me surpreende com perguntas que eu adoraria responder ou quando pergunta pela segunda vez a mesma coisa...

E assim vou amando-o mais e mais a cada encontro, a cada lágrima compartilhada, a cada quase desentendimento que se dissolve em um abraço e some para sempre. Eu não sei quanto o nosso amor vai viver mas eu o amaria por dez milhões de anos. Eu lhe escreveria dez milhões de livros ou rolos de pergaminho ou o que quer que você desejasse. Em você minhas palavras encontram aconchegante abrigo. Em você repousam. Por você, nascem, brilham: imortalizam. ®

7 de junho de 2010

Trechos de O Lustre - Clarice Linspector

" Não! queria ela gritar e dizer que esperasse, que não a deixasse sozinha sobre o rio; mas ele continuava. O coração batendo num corpo subitamente vazio de sangue, o coração jogando, caindo furiosamente, as águas correndo, ela tentou entreabrir os lábios, soprar uma palavra que fosse. Como o grito impossível num pesadelo, nenhum som se ouviu e as nuvens deslizavam rápidas no céu para um destino. "


" O coração batia num alvoroço doloroso e úmido como se fosse atravessado por um desejo impossível. E a vida do dia começava perplexa. "


6 de junho de 2010

Não estou pela metade para aceitar amores incompletos

Seria bom que fossem embora, que fossem todos embora e se desprendessem da infinitude do presente, despencassem no passado e rodassem, rodassem, rodassem, misturando-se a tudo o que já foi até tornarem-se parte daquilo que não posso mais tocar. Não quero mais ter que sustentar pensamentos do agora e quero que todos estejam radiantes no antes, no antes. Quero que sejam floridas recordações, inatingíveis, lembranças adocicadas que inquietam levemente o coração - só quando peço. É uma despedida, é uma lágrima rolando e abarcando-os como um dilúvio, levando-os para trás de mim: aqui na frente não são bem-vindos.

Vão - eu peço.

Preciso que me digam adeus de uma vez por todas e saiam desse meio estado de meio amor meio sofrido que vem e volta e que me engana e que confunde os meus olhos que já não sabem mais para onde olhar. Preciso do novo. Preciso me desfazer das cartas, das notas, das fotos, não me trazem nada, não me trazem nada senão o aviso da fulgacidade. Eu não os quero, não!, partam.

Saiam daqui: é uma crise, uma crise lúcida, quero ficar sozinha, quero esquecê-los, quero que sejam tudo aquilo que não posso ter mesmo quando a força do desejo de tê-los for imensa, pesada, infalível. Quero apagá-los do presente, metê-los no passado e deixá-los pairando por lá para sempre, para sempre. Quantas vezes terei que repetir? Não quero o morno, não quero metades; não estou pela metade para aceitar amores incompletos, sou antes um cortorno indefinível que ou me preenchem integralmente ou se afastem, por favor.

Vão - eu peço outra vez.

Não quero mais, não quero mais, eu vou para a frente, fiquem aí se quiserem. Fiquem! Já me decidi, estou tão cansada, oh é verdade, estou exausta de todos. Fiquem, então. Fiquem, é mais fácil, é claro, eu entendo, por que não? a vida dói, a vida cansa, pra que sair? não se movam, eu já fui, já sumi, estou ali onde não podem mais me ver, e ainda assim não me perdi, só me encontrei mais e mais porque o antes me entonteia, o depois ainda não veio mas o agora é meu, o agora é meu, tão tolamente meu tão extraordinariamente meu que não o divido mais, não o divido, e que dancem os outros pelo mundo, não sabem o que eu tenho aqui onde não podem me ver, não sabem que o amor aqui é maior e mais completo e mais ardente e mais e mais como o meu presente que é o melhor, o mais presente de todos os presentes...


4 de junho de 2010

Amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos

Eu teimo, sim, passarei meus dias questionando o por quê das palavras, estou imersa na dúvida, naufraguei aqui e quero saber se vou sair desse estado de tensão, quero saber o motivo de continuar escrevendo mesmo sabendo que muitos o fazem, e que não há nada de novo nisso, e que existem tradições, existem critérios de avaliação e as críticas, e talvez tudo aquilo que produzo não passe de um montinho de desabafos e palavras mal-colocadas, talvez nunca conheçam meu nome e eu prosseguirei anônima, desamparada, trancada com as minhas palavras que não sei onde enfiar senão no papel onde escrevo, onde teimo em escrever porque viver não me basta, porque sentir não me basta, preciso expelir tudo isso como se fosse uma necessidade básica, mas eu me preocupo, me preocupo, sim, em fazê-lo direito, não quero despejar devaneios desconexos por aí, ao menos é o que busco, há uma lógica em tudo que faço, é uma tentativa de satisfazer essas palavras peraltas que não saem do meu pé, que ficam aqui tamborilando, que fazem cócegas nos meus dedos e não me deixam em paz até que eu as torne sólidas, e, é incrível!, mesmo depois de concretas ainda são capazes de gritar, abrem uma boca inacreditavelmente imensa e chamam por outras, é verdade, e de repente sinto em mim fervilhar um campo fecundo de onde brota uma infinidade de letras, que vão crescendo, crescendo até construírem palavras e de palavras construírem sentenças e o ciclo recomeça, e eu me sinto tão impotente, não há como contê-las, e quando me dou conta não quero mais impedi-las de habitarem meu corpo, é doce tê-las em mim, é como se ocupassem minhas lacunas, quero dizer, se não escrevo parece que me falta algo, e cada dia sem fazê-lo é uma tortura, sinto como se tivesse deixado de cumprir uma missão vital, como se tivesse deixado de tomar banho ou me alimentar, parece que minha vida não se faz sem essa arte, parece que eu travo, não funciono, não vou para frente se não me sento aqui para escrever, e são poucas as coisas que eu gostaria de estar fazendo agora exceto escrever, e toda vez que não posso estar onde gostaria de estar, procuro preencher minha própria ausência com as letras, mas não sei, de vez em quando tenho a sensação de que um amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos não vai ser nada além de um amontoado de palavras pintadas pelos meus dedos, embora eu queira que sejam um amontoado de palavras cintilando nos olhos de outros, um amontoado de palavras perfurando a derme e a epiderme da alma daqueles que sequer me conhecem, que sequer sabem meu rosto, e a bem da verdade não é isso o que me interessa, não quero que me reconheçam, não quero que memorizem meus traços, quero mais é que mergulhem nessas coisinhas que são as palavras e que vão irrompendo de mim quase todos os dias sem me perguntarem se quero ou não essa relação mutualística, de acordo com a qual minhas palavras não vivem sem mim, e eu não sobrevivo sem elas.


2 de junho de 2010

Eu sou mais uma que engole vírgulas porque na vida não quero pausas

Nas veias entupidas do metrô eu sou mais uma querendo apenas me manter de pé nos corredores não pretendo ser lançada bruscamente contra as portas e nas filas intermináveis dos bancos e comércios agarrada aos ferros sujos do interior dos ônibus ou desviando das pessoas nas calçadas eu sou mais uma eu sou mais uma mais uma pagando impostos mais uma pagando pecados e contando trocados para tomar mais um café mais uma tentando deixar os olhos bem abertos tentando acordar na manhã fria e escura mais uma buscando se perder nas cores para não ter de olhar a realidade branca e preta das ruas corrompidas mais uma boca pálida resmungando cochichando ou sorrindo eu sou mais uma que vai indo, vai indo...

28 de maio de 2010

Não quero buscar os meus olhos na Lua

Ainda se ama a Lua à maneira dos gigolôs
(Carlos Drummond de Andrade)

Já tentei abolir meu vício de arrastar a Lua que acabo de considerar no céu para a superfície das palavras. Não sei mais dizer quantas vezes vim pela rua reduzindo os passos para desatar meus olhos e deixá-los alçar vôo, cada vez mais altos e mais depressa até esbarrarem e se agarrarem nas crateras. As nuvens vão correndo e misteriosamente desviam da potente lâmpada que acende o firmamento; deixam que se forme uma auréola de escuridão – ora, uma auréola de escuridão! É como se houvesse um abismo. Um abismo onde despencam meus olhos quando tentam traduzir a luz que emana da esfera lunar. Gostaria que alguém, algum dia, pudesse me explicar tamanha resplandecência. Não, não quero saber da influência do Sol. Não estou perguntando se a Lua é banhada ou não pelo brilho solar. O Sol não vem para nos aquecer quando cai a noite e a Lua faz o coração ficar tão quentinho, tão quentinho que dispenso os cobertores. Eu poderia passar longas horas apoiada no frio peitoril da janela e minhas pupilas continuariam incendiando, porque o fulgor, ah, o fulgor que ilustra meu rosto não é apenas visível – faz-me sentir, apalpa-me, enlaça-me em um abraço deslumbrante. Por que razão eu desistiria de pintar a Lua em letras? Embora saiba que a maior parte do esplendor se perde no caminho, embora saiba que só se experimenta a Lua largando os olhos lá, perdendo os olhos lá...

Falando nisso, preciso buscar os meus. Talvez um dia.


20 de maio de 2010

Palavra, chave

Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora

(Carlos Drummond de Andrade)

Poesia é a mão que despe a alma.
Os tijolos da poesia são as palavras.

As palavras me seduzem, me reduzem à submissão.
As palavras me conduzem, me agarram e jamais me largam.
As palavras murmuram ao longe, me invocando quando estou ausente.
Palavras: onipresentes.

Não tenho outra escolha senão recebê-las.
Palavras e ideias rogam uma forma dentro de um poema.
Eu dou a forma.
Rogam rimas. Eu dou as rimas.
Rogam versos. Faço os versos.

Mas as palavras, rebeldes palavras, nunca estão satisfeitas, e eu vejo sua inquietação.
Pulam aflitas de um canto ao outro.
Escorregam dos extremos, despencam, desaparecem.
Mudam de aparência, de configuração.
Outras brotam sem aviso no branco do papel, como caíssem do céu.
Acompanho a chegada de palavras que eu sequer sabia conhecer!

As palavras me tiram o sono.
As palavras me dão apetite.
Não sei dizer para que servem, não sei definir.
Apenas sei que as sirvo.
Cada vez mais me aprisionam em sua cela de letras.

Sou uma escrava das palavras.
E nas palavras encontro a chave.
Só não sei para onde ir quando abrir o cadeado e me ver em plena liberdade.
As palavras me abrigam.

As palavras me obrigam a trabalhar mesmo quando quero descansar.
As palavras estão por toda a parte, suplicando-me materialidade. Não se contentam em flutuar no infinito fluido dentro de mim. Querem sair. Querem ver o mundo também. Querem atenção, querem ser vistas!

E eu não posso dizer não. Não posso reprimi-las. Sou sua serva.
Então eu digo sim às palavras. Digo sim.
Sento-me aqui para escrever. Digo sim. Corporifico as palavras.

Cá estão as palavras que rogavam existir de fato.


28 de abril de 2010

O zíper da alma

A poesia é a mão mágica que abre o zíper da alma.
Eu pude senti-la. Anteontem, ontem, hoje pela manhã.
E sei que vou senti-la no dia seguinte. E no outro. E no outro.

A poesia é a mão que puxa com malícia o zíper da alma.
Despindo-a. Revelando-a. Expondo-a ao mundo.
Porque, enquanto vestida, a alma não se abala com os fatos do mundo.
Nua, ela estremece. Nua, a alma teme o mundo.

Entretanto, passado o sobressalto, a alma vive um instante de encantamento. E contempla o mundo. O que era óbvio aos poucos se vai transformando, apanhando sentidos muito além do que a alma podia captar antes, quando coberta.

A alma só é verdadeiramente alma quando assediada pela poesia.


19 de abril de 2010

Salve uma vida!

Já faz tempo que eu pretendia doar sangue e no último sábado finalmente o fiz! Particularmente me sinto muito satisfeita: além de ter recebido um ótimo atendimento, tenho a sensação de ter feito algo extraordinário - apesar de ter somente me deitado em uma cama e estendido meu braço esquerdo. No fim de tudo, ainda ganhei um lanchinho.

Escolhi a Hemoterapia Nove de Julho por recomendação do meu amigo Hélio e decidi divulgá-la, por julgar a doação voluntária de sangue uma atitude fundamental - afinal, é rápida, simples e não dói!
No site http://www.hemoterapia9dejulho.com.br/ há todas as informações necessárias para quem também quer salvar uma vida!


13 de abril de 2010

Os homens sem poesia

Nas tardes de movimento, volta e
meia
me afronta o vento, em que a
verdadenão se insinua, parece
estampadano centro da rua ou
nos muros
onde brincam os artistas
da cidade,sua juventude sem possibilidade, sua
pouca
ou quase nada liberdade, sem
energia,sem regalia, toda angústia
impressana extensa alma vazia e
nas vozesdos corações calados
dos homens sem poesia 


12 de abril de 2010

Paul Valéry

Paul Valéry,
filósofo, escritor e
poeta francês
1.
Entre a voz e o pensamento, entre o pensamento e a voz, entre a presença e a ausência oscila o pêndulo poético.

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2.
Todas as coisas preciosas que se encontram na terra, o ouro, os diamantes, as pedras que serão lapidadas estão disseminadas, semeadas, avarentamente escondidas em uma quantidade de rocha ou de areia, onde o acaso às vezes faz com que sejam descobertas. Essas riquezas nada seriam sem o trabalho humano que as retira da noite maciça em que dormiam, que as monta, modifica, organiza em enfeites. Esses fragmentos de metal engastados em matéria disforme, esses cristais de aparência esquisita devem adquirir todo seu brilho através do trabalho inteligente. É um trabalho dessa natureza que realiza um verdadeiro poeta. Diante do poema, sente-se bem que há pouca chance de que um homem, por mais bem-dotado que seja, possa improvisar para sempre, sem outro trabalho além daquele de escrever ou de ditar um sistema contínuo e completo de criações felizes. Como os vestígios do esforço, as repetições, as correções, a quantidade de tempo, os dias ruins e os desgostos desapareceram, apagados pela suprema volta do espírito para sua obra, algumas pessoas, vendo a apenas a perfeição do resultado, considera-la-ão o resultado de uma espécie de prodígio, denominado por elas INSPIRAÇÃO. Fazem, portanto, do poeta, uma espécie de médium momentâneo. Se fôssemos nos deleitar desenvolvendo rigorosamente a doutrina da inspiração pura, as consequências seriam bem estranhas. Acharíamos, por exemplo, que esse poeta que se limita a transmitir o que recebe, a comunicar a desconhecidos o que sabe do desconhecido não precisa então compreender o que escreve, o que lhe é ditado por uma voz misteriosa.

5 de abril de 2010

Hoje foi um dia parecido com chocolate meio amargo

com a garoa sutil, quase invisível, inescapável mesmo debaixo do frágil guarda-chuva, as poças d'água por todo lado, molhando e indignando os pés dentro de meias arrefecidas, não tão frio, tampouco quente; longe de ser acolhedor, no entanto nada incômodo, de céu embaçado, indefinido, ilimitado; os prédios congelados e colados na paisagem sem graça e inerte, nenhum sinal do sol, alguns sinais de sons, ônibus atropelando crateras d'água, esperança se acomodando nas lacunas em mim.


31 de março de 2010

Em todas as estações

Eu sempre soube que, quando caísse a tempestade, você não tamparia os meus ouvidos para evitar que eu me assustasse com os trovões. Você me levaria até a janela, apontaria para o céu e sugeriria que eu observasse, de olhos arregalados, o relâmpago, aquele lapso de luz avassalador que faz a paisagem estremecer e o coração perder o ar. Você nunca me escondeu dentro do armário para que os meus medos não me encontrassem. Você nunca economizou verdades. Também nunca me poupou sorrisos. E vou dizer: os seus sorrisos me dão a sensação de que, perto ou não, você nunca, nunca deixará de ser a irmã que as mãos da vida, graciosamente, me confiaram como um presente, com direito a cartãozinho e laço de cetim. Um presente de valor indefectível.


30 de março de 2010

Por que escrevo?

Há vezes em que reflito e tento encontrar quais os motivos que me impulsionam a escrever. Entendo que é uma resposta que metade do mundo tentou e ainda tenta buscar. Muitos já se arriscaram a explicar, justificar por que diabos brincam com as palavras, por que cargas d'água são tão facilmente magnetizados pela linguagem escrita. Suponho que as conclusões sejam sempre as mesmas.

24 de março de 2010

Palavras como presentes

Não me basta a combinação persistente de metáforas cuidadosamente pinceladas em versos, prosas ou canções, tão presentes nas minhas escritas,

Confissão de que a vida não basta

Se, segundo Fernando Pessoa, a literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta, estarão os adoradores das letras eternamente condenados à insatisfação? Porque eu simplesmente mergulho na emoção de escrever e sei que o faço melhor quando as angústias interiores me instigam a expressar, através das palavras, o que não pode ser exprimido de nenhuma outra forma.

Passagens

Hoje é preciso perder para amanhã poder ganhar - disso eu já sei. Mas eu não termino minha partida com sabor de derrota nos lábios, eu sei que o jogo ainda não terminou e ainda posso trilhar esse tabuleiro com meus próprios pés. Não me abate o fim de uma batalha não vencida e eu aponto meu canhão, se necessário. Eu sou o exército todo, entenda: posso lutar sozinha e todos os dias meu escudo reluz sem hesitar. Não é porque tenho inimigos que vou deixar me intimidar; tenho ainda os papéis, as manchas e as sinapses acontecendo incessantemente, tenho os punhos e tenho ele, o coração - estou segura. Posso dançar valsas alheias e assobiar o que não vem de dentro, mas a essência, a célula primária se mantém intacta. Nos meus olhos reside uma espécie trivial de paradoxo: oscila entre a transparência e a ausência de sensibilidade - pois é, isso pode mesmo acontecer às vezes.

Trivialidade da Indigência

Deitam em papelões e perdem sonhos assaltados
Roncam acima do chão, pelo mundo são farejados
Sentimos a repulsa autônoma atravessar a garganta
Por medo encerramos portas de aço quando a lua se levanta

Lutando contra a chuva

Foi por muito pouco - quase permiti que a chuva me cobrisse com seu tempero de melancolia. Lembro-me das noites - ainda esta semana - em que a lua brilhava muito no céu, e alguém me disse que se eu usasse óculos, veria-a muito menor. Não importa. Eu sei é que agora ela está escondida atrás de nuvens carregadas; enquanto escrevo faz silêncio, as gotas cessaram, mas não me esqueço do ruído que fazem ao tocar o topo dos edifícios, os vidros dos carros, não esqueço o som dos pneus deslizando nas ruas molhadas e a cidade cinza em um dia como hoje é quase uma prisão. Mas entenda: libertar-se é só uma questão de vontade, e eu poderia, se quisesse, inclinar-me para onde meus sentimentos me conduzem, que é geralmente a angústia. Sei que não sou a única. Ter uma vida é carregar uma bagagem cheia de bugigangas (comumente conhecidas como experiências) que nos puxa para trás, que tenta nos fazer cair. É preciso ter muita força, é preciso disposição, esquecer as dores nas costas e nos ombros, de vez em quando mudar a posição, levar a mala nas mãos, na cabeça - não importa. Não deixar a bagagem cair, nem deixar que ela nos derrube. Ah, err, não estou querendo me envolver com auto-ajuda, dar conselhos ou fingir que eu sei qualquer coisa sobre o fato de viver. Apenas apreendo assim os fatos, e organizando os meus pensamentos, chego a algumas conclusões, que nem sempre duram muito tempo, mas e daí? Nada dura para sempre mesmo e quem disse que uma ideia sobre qualquer coisa deve durar?

A paz

O inverno, de fato, não desabou em mim tão gélido quanto eu imaginava - sequer nevou nos meus jardins e minhas flores estão intactas, vívidas e tão coloridas quanto o meu espírito ultimamente. Entendo que o regador está nas minhas mãos e eu podia muito bem tê-lo posto de lado e esperado para ver as minhas plantinhas murcharem, para então plantá-las de novo. Mas por quê? Gosto do modo como elas cresceram e do perfume que exala de suas pétalas, gosto do verde cítrico do caule e as folhinhas que tremem tanto quando venta. Por que eu deveria deixá-las partir? Que bobagem, que bobagem.

O grande mistério

É, andei pensando - o resto é realmente um grande mistério, mas você sabe que já não tenho mais tanta certeza quanto ao inverno, afinal? Frio, frio, que se entende por frio? Pode estar um ventinho fresco lá fora, daqueles que racham o lábio e deixam nosso nariz parecer fucinho de cachorro; a gente tenta se aquecer debaixo do cobertor e toma um leite quente, fecha todas as janelas e esfrega as mãos... Mas isso tudo se trata de algo sólido, físico. Nem sempre o inverno tem a capacidade de penetrar os poros da pele e deixar o coração salpicado de neve. Mesmo nos dias cinzentos - como já comentamos - é possível encontrar uma lasca do azul, é possível trazer conforto pra dentro do peito. E eu digo que essa não é a pior estação, não, de modo algum! A gente usa o pretexto do frio para se aproximar das pessoas, e nessa história acaba roçando em um fulano, um sujeito profundo que cospe umas palavrinhas ferventes e de tão emocionada, de tão comovida, a gente deixa as palavrinhas pularem nas palmas das mãos e depois as guardamos no bolso da blusa. Blusa de frio, é claro.

Razão Distorcida

Quantas estrelas viram estátuas de gelo no céu ao findar de uma canção?
Quantas ondas no mar se desfazem quando se dissipa um coração?
Se o arco-íris foi tingido de sete cores
Se o tesouro está guardado a sete chaves
É porque muitas paixões flutuam de continente em continente
É porque muitas paixões levitam e esbarram nas nuvens
E a beleza de tudo que é vida se torna evidente em cada piscar de olhos
Em cada passo de quem encontrou algum sentido em nascer
Em cada passo de quem sabe o por quê de acordar

A letra fora do alfabeto?

Sempre corri contra uma força que não entendo e em direção a um cais desconhecido. Acho que fujo da banalidade. E, no fim, esbarro na verdade inescapável: quero o que todos querem. No fim, apesar de tudo, sou só mais uma. O fato de desejar o peculiar me torna comum e eu o seria mesmo se buscasse o contrário. É uma barreira instransponível - é como cobiçar a inatingível perfeição. E desistir da perfeição talvez seja meu maior desafio. Não existe um lugar só meu. A vida é pública, o mundo está escancarado e é improvável que eu consiga privatizar caminhos que trilhei. Para que busco a singularidade é o que não entendo. Por que vejo as pessoas como uma grande massa compacta de ideias e absurdos? Eu não sei. E o fato de achar que sou o coringa do baralho, a letra fora do alfabeto, o verso arrancado do poema não significa que eu me veja no alto, entende? Oscilo entre a inferioridade e o patamar geral. Afinal, somos todos diferentes, não? Cada indivíduo enxerga em si aspectos que julga não haver em mais ninguém e desta forma pensamos todos iguais. E erramos todos juntos. Porque somos todos uma substância só e paralelamente uma infinidade de pontinhos incomuns, todos formando o vasto complexo da humanidade. Viver implica muitos verbos. E pensar desgasta a emoção. Seguir princípios? Definir padrões? Há fases em que me parece adequado, mas confesso que não passo de uma grande hipócrita. Eu e você. Moldando visões de mundo para que se identifiquem perfeitamente com as nossas escolhas. Para que pareçamos corretos. E é inconsciente. Apenas buscamos o bem-estar e por ele nos tornamos muito dispostos; é o instinto inerente ao ser humano. Não faz sentido nos torturarmos. Não faz sentido seguir regras que nos depreciam. Sou parte de um todo, que devo fazer? Não posso abandonar o universo e me recriar. Só me resta essa vida. Só me restam esses anos. Uma ou todas, eu só quero me sentir bem. E para mim basta.


As Cores e o Nada

Destampa-se o delicado pote de plástico, revela-se o líquido cremoso e seus nuances. É como sorvete derretido, em tons pastéis, firmando um pacto infalível com os olhos. Ingênuos olhos.

É quase inevitável não desejar tocar, sentir, talvez até provar seu sabor amargo e ligeiramente ácido. Conferir, afinal, se alma se beneficia dessa peculiar refeição.

O pincel, então, se aproxima. Provoca ondas de êxtase na superfície lisa. As cores se chocam, se entrelaçam. Círculos de tons e vida se projetam. Refletem no vidro da janela, esteja o sol presente ou não. Refletem nos fascinados olhos. Ingênuos olhos.

Reflexão no Consultório

Reflexão na sala de espera do consultório odontológico.

Um ambiente agradável em sua simplicidade. A imperdoável ausência de revistas. Na falta de imagens para distrair meus curiosos olhos, ocupei-me em observar a rua através da grande porta de vidro. Um número incalculável de carros transitava no curto espaço que me era visível. Automóveis que passavam depressa, que corriam contra algo que eu não podia ver nem tocar. Cada uma daquelas máquinas poluidoras parecia exibir uma faixa na qual se lia 'SUA VIDA AQUI'. Mas eu não podia alcançá-las, era impossível. Eram muitas, e cada qual com seu segredo, sua aventura. Cada qual contendo um pedaço essencial de qualquer coisa, aquela qualquer coisa que ninguém sabe o que é, mas de que todos necessitam. E eu, na minha ignorância e incapacidade de acompanhar o ritmo exaustante do tráfego da vida, só conseguia obter um ínfimo pedacinho do pedaço essencial de qualquer coisa. Eu não podia ter tudo. Eram muitas, e passavam com tanta velocidade, tanta velocidade...

'Escolha.' Então eu deveria escolher apenas um pedaço. E engoli-lo imediatamente, como se ele pudesse escapar. Mas ao optar por um único pedaço, estaria deixando de lado um milhão de outros pedaços, que poderiam ser tão ou mais saborosos do que o pedaço que por ora escolhi.

Quando o movimento caía e poucos carros subiam a rua, eu era tomada por um alívio sem igual. Podia saborear a visão de cada um em particular, com a máxima intensidade da arte de observar. Mas eles retornavam - a quantidade - e enchiam meus olhos outra vez, encobrindo-os - a qualidade. A sensação era de extrema debilidade. E o dentista me chamava para restaurar um dente no fundo da minha boca fria.


Inércia

Foi durante o dia, logo após o almoço, que ela tomou o elevador e desceu. Olhou de esguelha para o céu, pensando sozinha nos seus problemas e suas tarefas. Dali cinco minutos estaria no trabalho. Ah, que preguiça... Mas, antes mesmo de deixar o condomínio, deparou-se com uma cena que a fez despencar em seu profundo poço de reflexão. Era impressionante. Talvez tivesse uma espécie de vício, mas... O cotidiano lhe despertava um sentimento louco, irrefreável, que conduzia seus pensamentos até a mais infinita divagação.

Da Janela

Todos os dias, ao amanhecer, seu sono é interrompido pelo som indecente do despertador, agressivo, insistente, dispersando as imagens de seus sonhos - sonhos de que ela nem se lembra ao acordar. Coça os olhos brandamente, boceja, senta-se na cama e faz uma tentativa - sempre em vão - de contemplar o céu através da janela de seu quarto. Não consegue enxergar mais do que dois centímetros. Uma coleção de prédios altos impedem sua visão. A rede de proteção a obriga a ver tudo em seus moldes quadrados, retos, regulares. Mas que coincidência... Ter que ver somente o que lhe é permitido, da maneira que lhe é apresentado.

Não. Ela quer ver mais. Ela quer ver para onde as nuvens estão indo, de onde o sol está nascendo, para que lado os pássaros estão voando. Inquieta, enroscada entre seus lençóis e indagações, quer se livrar das grades e dos muros de concreto que escondem a beleza da vida, que lhe roubam a doce paisagem da verdade. Ela quer ver além, muito além. Além da janela, da rede, dos prédios, das nuvens, do sol, do céu, do coração...

O que ela quer ver, não existe.

Mas ela continua procurando. Incansavelmente.