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#5 Sempre concluindo a mesma conclusão: eu não vou chegar lá.

Não existe um . Existem vários lás. Chegando a um desses lás – porque isto sim é possível – abrem-se então inúmeras possibilidades de lás que, por sua vez, abarcam em si mais incontáveis possibilidades de lás. É impossível estacionar em um , isto implicaria estar morta. Uma vez que estou viva e não pretendo estar morta neste instante, o jogo é ir de em fazendo de conta que não quero o conforto de acreditar que existe um em que seja possível estacionar sem pensar nos outros lás que vão se abrir; é ir de em alcançando sempre o melhor aonde puder chegar. E os outros lás que me aguardem, chegarei .
Mensagens recentes

#4 Mais do que ler o poema, experimentar o poema.

Sentir o poema. Copiar o poema no meu caderno, trabalhar sobre o poema, brincar com o poema, jogar com o poema e com os versos e as palavras e as sílabas e as letras que compõem o poema. Decorar os entornos do poema. Passar a mão no poema que eu copiei, o poema que não é meu, mas que minhas próprias mãos escreveram. Tocar o poema com a ponta dos dedos, com a superfície da pele, com a epiderme, marcar minha impressão digital no poema. Rir sobre o poema, chorar sobre o poema, fechar os olhos para o poema e vê-lo se formar nesta profunda tela preta que se abre diante de mim quando meus olhos estão fechados. Ali o poema se escreve novamente. O poema holográfico se desfaz quando abro os olhos, mas continua sob meu rosto que está sobre o caderno onde copiei o poema, que não é de minha autoria, mas que, no entanto, agora é meu porque o possuí.

#3 Algumas esperas poderiam ser para sempre esperas.

Algumas esperas são mais gostosas do que a coisa esperada em si. Às vezes a coisa esperada estraga a espera. Algumas esperas poderiam continuar sendo esperas mesmo quando a coisa esperada já se consumou. Nesse caso continuaríamos a esperar a coisa que já aconteceu ou chegou pelo simples fato de a espera conter em si todos os elementos que esperamos que a coisa em si contenha, mas que apenas a espera pode conter. A espera, porém, não é uma farsa, não é uma ilusão. A espera e todos os seus elementos existem. A espera é tem uma existência e uma autonomia tão concretas quanto a coisa esperada em si. Acontece que a espera e a coisa esperada às vezes perdem a relação entre si. A espera é uma coisa; a coisa esperada é outra coisa. Mas a espera tem uma existência própria – e aí, pensando sob esse viés, se torna possível que a coisa esperada jamais estrague a espera, e a espera continue sendo para sempre espera.

#2 E se eu juntar várias coisas que nunca terminei?

Se pegar todos os projetos inacabados, desde aqueles em fase de concepção dentro da minha cabecinha que nunca chegaram a conhecer o mundo fora dela até aqueles efetivamente iniciados, efetivamente colocados no mundo material, mas que não foram concluídos? Se eu juntar retalhos de coisas que comecei e não terminei, sejam quais forem, terei algo acabado? Afinal, o que é algo acabado? O que é concluir, finalizar, terminar, encerrar, arrematar? Um projeto chega a realmente estar consumado algum dia? Como é que se sabe que algo está pronto? Qual a hora certa de colocar o ponto final? O que marca, afinal, o ponto final?

#1 A certeza é um bicho que me pica de vez em quando.

Tem um ferrão pontiagudo, me pega quando eu menos espero, me espeta a bunda e vai embora voando e zunindo, zombando de mim. Me deixa lá, sozinha, com o veneno da certeza me percorrendo o corpo de cima a baixo. Passo dias com a certeza no sangue, acordo com certeza, durmo com certeza, caminho pelas ruas com passos firmes de certeza, o queixo erguido de certeza, o olhar adiante com certeza. “Que bicho que te picou, hein?”, me perguntam. “A certeza não dói”, eu respondo, com a certeza cintilando nos dentes. Durante o período em que circula a certeza através do meu sangue, tenho um horizonte estável ao longe para o qual olhar todos os dias. Acordo, abro a janela, o horizonte está lá, exatamente no mesmo lugar, tão imóvel, tão paradinho que posso tocá-lo com a ponta dos dedos sem perdê-lo. O problema é que: depois de uns dias, meu corpo vai expurgando o veneno da certeza. Não pode com ele conviver. Depois de suar, urinar, defecar, assoar o nariz inúmeras vezes, a certeza já não faz mais p…

Cê não sabe o quanto eu chorei quando cê foi embora

A gente se abraçou forte um abraço diferente de outros abraços, a gente se despediu uma despedida diferente de outras despedidas, cê virou as costas e foi caminhando um caminhar diferente de outros caminhares na direção da Polícia Federal e eu fiquei olhando um olhar diferente de outros olhares cê chegar do outro lado. Sua imagem já longe por trás do vidro, as pessoas passando do meu lado, cê ficando cada vez mais embaçada. Mas cê não sabe o quanto eu chorei quando eu fui embora, um choro diferente de outros choros, quando eu me despedi de você e fui me arrastando um arrastar diferente de outros arrastares com a minha mochila na direção da Polícia Federal. Peguei a fila numa desfalecer diferente de outros desfaleceres, conferi meus documentos, olhei para trás e cê ainda tava lá: imóvel por trás do vidro, as pessoas passando do seu lado, cê estática e vertical, eu me arrastando e me afastando. 
Cê não sabe mesmo o quanto eu chorei quando te perdi de vista, cê sumiu do meu campo de vis…

Trans

1# Já sinto saudade sem nem ter ido, mas sinto saudade do que vem a seguir, ou de quando estarei no amanhã sentindo pelo hoje, ou do hoje que sente pelo ontem, ou mesmo do ontem que já sentia pelo amanhã
2# Já sinto saudade se olho para trás e para frente, nesta espiral de tempo que é e não é ao mesmo tempo, neste tempo elástico, neste não espaço, neste não tempo, nesta elasticidade espaço-temporal - hoje aqui, amanhã lá - tanto faz
3# Já sinto saudade e ao mesmo tempo não, porque hoje e aqui são amanhã e lá, e amanhã e lá invariavelmente serão hoje e aqui, a saudade para mim é transespacial, transtemporal, trans -

Ano novo

1# Esse ano novo tá que tá. Rapaz! Valpo: só tenho mais trinta rotações da Terra em torno do seu eixo aqui. Mas a ausência e a presença, o que deve ser preenchido e o que não deve. Gosto de te ver existir. Por que criar? Para quem? Mucho amor. Olha a turistada. Escadas lixos gatos e plantas. Palta a mil! Kero. Minhas raízes. Vou voltar, vou embora. Quando volto? Cabides, janelas, escombros - arte? Os cerros, o porto, o sobe & desce. Lloro por quererte, por amarte, por desearte. Os muros. Os muros que olham o mar. O mar que nos olha a todos e vela por nós. Muchas gracias. Hoje até que eu aceitaria a eternidade.
2# Hoje até que eu aceitaria escombros, muros, arte, minhas raízes. Vou voltar, muchas gracias. A presença e a ausência, o que não deve ser preenchido e o que deve. Escadas lixos gatos e plantas: só tenho mais trinta rotações da Terra em torno do seu eixo aqui. Quiero, amo, deseo. Olha a turistada. Quando volto? Para quem? O mar que nos olha a todos e nos vela, mucho amor. …

Como extrair mundos do mundo?

Depois que você viu o absurdo das coisas do mundo, como voltar a ver a manifestação da alma das coisas do mundo? Depois que seu olhar esteve sequestrado por um restrito par de lentes - real e viável, sim, mas não o único possível - como ver as outras camadas, as outras possibilidades de universinhos das coisas do mundo?
Como extrair mundos do mundo? Como ver além da primeira impressão já programada e reprogramada tantas vezes conforme cada avanço de entendimento? Como ver toda e cada camada simultaneamente sem deixar que nenhuma se sobreponha e tire o sentido das demais?
A aquela mãozinha que ajustou meus óculos e me ajudou a equilibrar a força de cada membraninha da existência que avança através das minhas retinas. Que me ensinou a olhar para tudo isso contemplando as múltiplas riquezas - às vezes sagradas, às vezes profanas - de tudo isso. Meu eterno agradecimento. O resto é trabalho meu.

Eu não sabia que você sorria tanto

Eu não sabia que tinha tanto sorriso guardado dentro de você, nem que eu podia chamar os seus sorrisos e trazê-los para a superfície da sua cara assustada. A sua cara pertinha da minha me fez sentir o cheiro dos seus sorrisos. Seus sorrisos cheiram bem. Eu não sabia que seus sorrisos podiam ouvir meu chamado lá de dentro da sua gavetinha de sorrisos. Eu desejo do fundo de mim que você tenha mais sorrisos dentro de você, que tenha um armário todo de sorrisos, porque eu não quero parar de chamá-los. Principalmente quando sua cara tiver pertinha da minha e seus olhinhos apertados em lua crescente.

A música eletrônica

é uma das formas não verbais que tenho de me sentir identificada. Ela me dá a sensação de estar se movimentando da mesma forma que meus pensamentos, parece ter a mesma dinâmica das diferentes esferas da minha conexão.  É quase como se eu pudesse ver as pecinhas dos meus insights se movendo dentro da minha cabeça. Às vezes calma, às vezes em tensão, expectativa, crescente, clímax, um movimento que nunca cessa, que inclui, que exclui, que vai, volta, mescla passado e futuro, mescla realidade e seu inverso. É como uma representação melódica do próprio fluxo de pensamento.

A culpa

Hoje a culpa avançou para um estágio em que já não tem exatamente uma forma. É a culpa despersonificada, desvinculada de suas origens, o sentimento em si, acionado mediante certos estímulos que procuro evitar. Talvez esta culpa específica permaneça indefinidamente na sala do inconsciente junto com as outras, anteriores, simultâneas e futuras, que eventualmente também vão se desassociar de suas causas originais. Talvez todas as culpas estejam destinadas a perderem suas formas em algum momento para se mesclarem em uma única substância – a culpa primordial, a mãe de todas as culpas. A culpa que tem a ver com o embate entre os instintos e a renúncia. Que tem a ver com o buscar experiências sem critério, sem contemplação paciente dos fatos.

A tensão primordial

Eu operei todas as mudanças necessárias nos últimos tempos porque não suportava mais me deixar afetar pelas tensões alheias. Agora, me vejo exatamente onde eu (sentia que) deveria estar: pronta para trabalhar com as minhas tensões, livre de interferências – ou, ao menos, das interferências que inevitavelmente transbordavam em mim e impediam que eu pudesse divisar, identificar e futucar minhas próprias tensões. Não sei ao certo quais são elas, em que consistem, mas aqui estou, sozinha comigo, diante de todos os elementos que estiveram vagando no meu inconsciente enquanto eu trabalhava com foco nas questões externas, práticas e materiais da minha vida. Agora, as tensões me observam, sem nada que se interponha entre nós. 
O que estou encontrando agora são as minhas tensões mais profundas? Haverá questões ainda mais profundas que estas? Para acessá-las, o que mais devo sacrificar? Se esta é a última camada de tensões, o que haverá depois delas? Ou será que estas tensões são insolúveis? E…