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Mensagens

Cê não sabe o quanto eu chorei quando cê foi embora

A gente se abraçou forte um abraço diferente de outros abraços, a gente se despediu uma despedida diferente de outras despedidas, cê virou as costas e foi caminhando um caminhar diferente de outros caminhares na direção da Polícia Federal e eu fiquei olhando um olhar diferente de outros olhares cê chegar do outro lado. Sua imagem já longe por trás do vidro, as pessoas passando do meu lado, cê ficando cada vez mais embaçada. Mas cê não sabe o quanto eu chorei quando eu fui embora, um choro diferente de outros choros, quando eu me despedi de você e fui me arrastando um arrastar diferente de outros arrastares com a minha mochila na direção da Polícia Federal. Peguei a fila numa desfalecer diferente de outros desfaleceres, conferi meus documentos, olhei para trás e cê ainda tava lá: imóvel por trás do vidro, as pessoas passando do seu lado, cê estática e vertical, eu me arrastando e me afastando. 
Cê não sabe mesmo o quanto eu chorei quando te perdi de vista, cê sumiu do meu campo de vis…
Mensagens recentes

Trans

1# Já sinto saudade sem nem ter ido, mas sinto saudade do que vem a seguir, ou de quando estarei no amanhã sentindo pelo hoje, ou do hoje que sente pelo ontem, ou mesmo do ontem que já sentia pelo amanhã
2# Já sinto saudade se olho para trás e para frente, nesta espiral de tempo que é e não é ao mesmo tempo, neste tempo elástico, neste não espaço, neste não tempo, nesta elasticidade espaço-temporal - hoje aqui, amanhã lá - tanto faz
3# Já sinto saudade e ao mesmo tempo não, porque hoje e aqui são amanhã e lá, e amanhã e lá invariavelmente serão hoje e aqui, a saudade para mim é transespacial, transtemporal, trans -

Ano novo

1# Esse ano novo tá que tá. Rapaz! Valpo: só tenho mais trinta rotações da Terra em torno do seu eixo aqui. Mas a ausência e a presença, o que deve ser preenchido e o que não deve. Gosto de te ver existir. Por que criar? Para quem? Mucho amor. Olha a turistada. Escadas lixos gatos e plantas. Palta a mil! Kero. Minhas raízes. Vou voltar, vou embora. Quando volto? Cabides, janelas, escombros - arte? Os cerros, o porto, o sobe & desce. Lloro por quererte, por amarte, por desearte. Os muros. Os muros que olham o mar. O mar que nos olha a todos e vela por nós. Muchas gracias. Hoje até que eu aceitaria a eternidade.
2# Hoje até que eu aceitaria escombros, muros, arte, minhas raízes. Vou voltar, muchas gracias. A presença e a ausência, o que não deve ser preenchido e o que deve. Escadas lixos gatos e plantas: só tenho mais trinta rotações da Terra em torno do seu eixo aqui. Quiero, amo, deseo. Olha a turistada. Quando volto? Para quem? O mar que nos olha a todos e nos vela, mucho amor. …

Como extrair mundos do mundo?

Depois que você viu o absurdo das coisas do mundo, como voltar a ver a manifestação da alma das coisas do mundo? Depois que seu olhar esteve sequestrado por um restrito par de lentes - real e viável, sim, mas não o único possível - como ver as outras camadas, as outras possibilidades de universinhos das coisas do mundo?
Como extrair mundos do mundo? Como ver além da primeira impressão já programada e reprogramada tantas vezes conforme cada avanço de entendimento? Como ver toda e cada camada simultaneamente sem deixar que nenhuma se sobreponha e tire o sentido das demais?
A aquela mãozinha que ajustou meus óculos e me ajudou a equilibrar a força de cada membraninha da existência que avança através das minhas retinas. Que me ensinou a olhar para tudo isso contemplando as múltiplas riquezas - às vezes sagradas, às vezes profanas - de tudo isso. Meu eterno agradecimento. O resto é trabalho meu.

Eu não sabia que você sorria tanto

Eu não sabia que tinha tanto sorriso guardado dentro de você, nem que eu podia chamar os seus sorrisos e trazê-los para a superfície da sua cara assustada. A sua cara pertinha da minha me fez sentir o cheiro dos seus sorrisos. Seus sorrisos cheiram bem. Eu não sabia que seus sorrisos podiam ouvir meu chamado lá de dentro da sua gavetinha de sorrisos. Eu desejo do fundo de mim que você tenha mais sorrisos dentro de você, que tenha um armário todo de sorrisos, porque eu não quero parar de chamá-los. Principalmente quando sua cara tiver pertinha da minha e seus olhinhos apertados em lua crescente.

A música eletrônica

é uma das formas não verbais que tenho de me sentir identificada. Ela me dá a sensação de estar se movimentando da mesma forma que meus pensamentos, parece ter a mesma dinâmica das diferentes esferas da minha conexão.  É quase como se eu pudesse ver as pecinhas dos meus insights se movendo dentro da minha cabeça. Às vezes calma, às vezes em tensão, expectativa, crescente, clímax, um movimento que nunca cessa, que inclui, que exclui, que vai, volta, mescla passado e futuro, mescla realidade e seu inverso. É como uma representação melódica do próprio fluxo de pensamento.

A culpa

Hoje a culpa avançou para um estágio em que já não tem exatamente uma forma. É a culpa despersonificada, desvinculada de suas origens, o sentimento em si, acionado mediante certos estímulos que procuro evitar. Talvez esta culpa específica permaneça indefinidamente na sala do inconsciente junto com as outras, anteriores, simultâneas e futuras, que eventualmente também vão se desassociar de suas causas originais. Talvez todas as culpas estejam destinadas a perderem suas formas em algum momento para se mesclarem em uma única substância – a culpa primordial, a mãe de todas as culpas. A culpa que tem a ver com o embate entre os instintos e a renúncia. Que tem a ver com o buscar experiências sem critério, sem contemplação paciente dos fatos.

A tensão primordial

Eu operei todas as mudanças necessárias nos últimos tempos porque não suportava mais me deixar afetar pelas tensões alheias. Agora, me vejo exatamente onde eu (sentia que) deveria estar: pronta para trabalhar com as minhas tensões, livre de interferências – ou, ao menos, das interferências que inevitavelmente transbordavam em mim e impediam que eu pudesse divisar, identificar e futucar minhas próprias tensões. Não sei ao certo quais são elas, em que consistem, mas aqui estou, sozinha comigo, diante de todos os elementos que estiveram vagando no meu inconsciente enquanto eu trabalhava com foco nas questões externas, práticas e materiais da minha vida. Agora, as tensões me observam, sem nada que se interponha entre nós. 
O que estou encontrando agora são as minhas tensões mais profundas? Haverá questões ainda mais profundas que estas? Para acessá-las, o que mais devo sacrificar? Se esta é a última camada de tensões, o que haverá depois delas? Ou será que estas tensões são insolúveis? E…

Nesta espiral de abundantes mudanças

vez ou outra temo a sensação de incoerência da minha própria vida. Para não me deixar abalar, procuro visualizar a linha que conecta tudo, cada recorte, o elo entre as cadeias de certezinhas. Não importa que minha linha seja toda remendada, com distintas cores, tamanhos e texturas: o importante é que ela exista e que eu seja capaz de ressignificá-la de tempos em tempos.

A experiência como linguagem

Andei pensando que a minha necessidade de experiência está intrinsecamente – mas não apenas – relacionada com a necessidade de produção de sentido, que, por sua vez, se relaciona com a maneira como articulo as diferentes linguagens. Como seres sociais, temos a língua, a linguagem verbal como meio privilegiado de comunicação, mas há também outras linguagens, mais sensíveis, por meio das quais podemos estar no mundo. Sinto que meu desejo mais profundo, o que está no cerne de tudo ou o que inconscientemente pauta as minhas ações, é expandir as redes que intermedeiam a minha relação com o mundo, sofisticar o meu estar-no-mundo. A experiência seria então uma linguagem em si, a linguagem do meu corpo, um sistema próprio; o processo de transformação dos sinais em signos se dá pela experiência mesma. 
Sofisticar quer dizer aprimorar, refinar, e não ampliar, expandir. Sejamos honestas (eu comigo mesma): não adianta falar apenas do que está funcionando (a ampliação) – o importante e que deve s…

Este lugar existe e fica com a porta fechada dentro de mim

Falar dele é abrir a porta e observar, a uma distância segura, as culpas que dançam uma dança maligna ao longo de um labirinto. Falar deste lugar é olhar para ele sem me perder lá dentro. Entrar, no entanto, é cruzar o limite seguro entre o eu de todos os dias e o eu que fica preso neste labirinto. Hoje eu entrei. Eu entrei e a porta se fechou atrás de mim. Hoje eu olho as culpas bem de perto, dentro de seus olhos de pupilas dilatadas. Elas me tocam, me alisam, me abusam, me abraçam, me prendem, dançam comigo à força, me obrigam a sentir a materialidade de seus corpos, me obrigam a lembrar que elas existem e que basta abrir a porta e entrar para sentir com cada célula do meu corpo que elas estão lá, o tempo todo. Todas as culpas se reúnem no labirinto, todas, desde a minha mais tenra idade até o instante presente. Algumas já nem posso reconhecer mais, seja porque são muito antigas, seja porque não são tão fortes a ponto de sobreviverem numa materialidade concreta por muito tempo. Out…

Mais uma noite que vou dormir e não te escrevi

Mais uma noite que enterro a cabeça no travesseiro sufocada no dilema entre te dizer que não te esqueci apesar de todas as tentativas e saber que mais uma vez te buscar é inadequado, mais uma noite chegando à conclusão de que não sou exatamente quem pensava que era, que não estou no controle de nada, que não sou tão forte quanto eu pensava, que sou frágil, vulnerável, que sei que amanhã vou erguer a cabeça e vida que segue mas que quando chegar a noite mais uma noite eu vou deitar e lembrar de você e da vida que não vivemos juntas e dos planos que finalmente saíram das conversas de WhatsApp e que pareceram tão perto de se realizarem, as promessas nas quais acreditei e não acreditei ao mesmo tempo, que pareciam tão perto e tão longe ao mesmo tempo, perto porque você me olhava e me tocava enquanto me explicava passo a passo o que ia fazer para que pudéssemos ficar juntas, mais uma noite eu deito e lembro daquela tarde de inverno você assoprando um dente de leão e me dizia tudo o que eu…

Como o mochilão me ajudou a entender a minha sexualidade

Para iniciar, quero tentar explicar de maneira simplificada o conceito de não referencialidade que venho trabalhando nos últimos dias e que tem balizado as minhas recentes reflexões. É a partir dessa hipótese que construo a verdade sobre meus processos atuais, pois viajar, para mim, é um movimento na direção do não referencial. Com isto quero dizer que, ao começar a mochilar, me afastei do que era referencial para mim, ou seja, do que era familiar. Estar sempre na estrada é, de algum modo, abrir mão do referencial de lar, de suporte, lugar de repouso – não geográfica ou fisicamente, mas no plano das ideias e dos sentires. É claro que é perfeitamente possível que o desconhecido venha a se transformar em conhecido num contexto de viagem, transcendendo os limites básicos da dualidade familiar/não familiar e convertendo-se, também, em lugar de repouso psíquico e afetivo – como, por exemplo, um amigo mochileiro que diz que sua família é onde ele estiver, ou seja, em qualquer lugar do mund…